1. Teu corpo,o que ésenão o que pairasob os imensos ocasosque,hora ahora,desabamsem perceberes?A cada ano,tornando-teainda mais cansado…A cada ano,tua breve vidaanunciandoainda mais breve,ainda mais próxima,a partida…Mas levantas como um apóstolo do caos,embora não tenhas fénem nada próximo a isto…Levantas,comes o que os dias ofereceme, com um irresistível sono,assistes aos avanços e retrocessosa que os homens […]
Convicção Funda é a raiz do mar. Séria é a bondadeem cada movimentovisível ou discreto,concreto ou abstracto! *-*-* Presságio Todos os navios voamHá várias formas de andarQuando é por fim encontradoO mel do salE é pelas mãos fabricado o gelDe fixar certezas Vai, não olhes para trás!Quando é preciso voarAsas surgem de algum lugar! Pode […]
Despertar Não a lembrar nem esperarmas despertar ao vê-lae deixar-me de mim quando viesse *-*-* À transparência Adensa-se o fulgor na luz à transparênciaque se perdia no teu olhar que repetianão pode não ser nunca só pode ser a enchente Não me vês ver-te vir para me veres vir? *-*-* Transmutações Incessante vaivém no rasto […]
Distâncias O cabelo longo caía nas ondasE no solOlhar doirado.Esplendia. Os rapazes ferviam na areia preta.Tornavam-se cavalos na água atlântica. O pente repunha a lisura do cabeloHirto pelo sal.As mãos entrançavam os fiosOu deixavam-nos flutuarAo ventinho marítimoQueNão arrefecia a chama do verão. A saia curta de algodão (tão longe ainda as de seda)Ornava ínfima e […]
Outono Salvé! bosques coroados com restos de verde!Folhas amarelecidas nos esparsos relvados!Salvé, últimos dias agradáveis! O luto da naturezaAdequa-se à melancolia e agrada ao meu olhar! Prossigo, qual sonhador, o caminho solitário,Pretendo rever ainda, pela última vez,Esse pálido sol, cuja luz ténueMal trespassa, a meus pés, a obscuridade dos bosques! Sim, nesses dias de outono […]
JACARANDÁS DE ANGOLA É nas ruas de Lisboa que o tempo galgamuros, mergulha em perfume eufórico deloucura azul-violeta, quase roxa, como aflor do jacarandá no dia embaciando sobreum tímido clarão de ocasos longínquos. É nas ruas de Lisboa, nas calçadas íngremes,que o vento afina nota de outras ruas, praças,alamedas róseas, brancas, aniladas,ateando esquivo entusiasmo, meio […]
CENÁRIO As mulheres penteavam os cabelos das crianças,os homens olhavam, com falsa indiferença, pela janela,os campos onde o feno lentamente evaporava –o tempo parecia um intervalo onde a vida aconteciaentre prosas extenuantes e poemas onipresentes. Nenhum gesto fora de hora empanava o cenário,nenhuma voz levantava as cortinas da saladesvendando os vidros translúcidos da aurora. O […]
Estás aproximando-te! I Olha, um novo domacrescentou-se hojeao teu (des)conhecimento. Não sabes, nem queressequer saberque acerca de ti nada sabes. Para onde se retirou o brilhodas sedutoras vaidades?Onde estão os luminosos perfumesdo nada? Estás aproximando-te, amigo,do conhecimentodo teu próprio desconhecimento! II Lembras-tedas noites de insónia,de outrora,quando a alvorada despontavae tu te assustavascom o que pensavas […]
Falar aos muros * O traçado do labirinto a sete voltas: (quantas memórias largada a memória) No vale um leopardo intui a lua o fim da linha a prata das margens e daí nasce a língua O que lhe dá a força de uma fome. * Referência a “Je Parle aux Murs”, de […]
e havia mulheres imperecíveisenganando o abismo podre do tempocomungando cada filamento verde da memóriacom matas na orla dos olhos e dos cabelose hibiscos de sombra e de espermae plantas de sementes desnudasarranhando o solo mulheres-tíliasfazendo da oquidão sua força secretíssimamulheres-solenes e náuticas hospedarias de ventocom cargas nucleares intransponíveisamarradas à dura proeminência das ancasmulheres de grávidas […]
FRAME O farol está nas nossas costas.De dia mal damos pelo seu brancofungível, tudo o que fulguraao seu redor inspirae agiganta-nos.Mas a alegria,esse hóspede semprenuma fona, desvanece-see com a idadeimporta o que traga o mara inopinada imagem que resgateo álgido segredo que partira. O farol relincha e queimae alumia nas nossas costas.Nós, já nos mínimos,esperamos […]
Tamagotchi VI Che paura che ti faranno i porci fantasma dentrol’ unità che produce questa storia di assemblaggioa linee guida total. Non vorrail’ ingranaggio nero la verdura che hai lasciato a fermentaredietro il cibo buonissimo guardada come lo mangiano.Non è il sapore il problema è la consistenzaè l ‘ influenza. È che non ti lavo […]
Anatomia poema longoque se desbotacom o olhar na planícieda tua perna encontro o calcanharquase gorduchoredondode um modelo antigo a rota remotaem que a planície foi duna e se comeucom ventos e degelosao norte mais da coxaque foisua firmeza *-*-* 1 de Março esta luz cinzentaconstanteque se aflorado chão delimita a representaçãoesquálida da sombra *-*-* morte […]
Quién observa la montañatras el cristal de la ventana.Qué ojos contemplan las nubes cenizarozando la cumbre,el vuelo del pájaro negro,la desnudez del árbol. Quién descubre el ahora, el ayer y el mañanatransitando un paisajeque perdurará a su finitude. De su passar sin huella nada subsiste.Seguirán los árboles desnudos,los pájaros volando,el gris de la montaña enfrentándose […]
VESTÍGIOS DE UM QUÂNTICO INEVITÁVEL No início parecem corvossilhuetas prateadas alastrando líquidaa possibilidade boreal, vestígios de um quânticoinevitável em vaga suposição de estrelas procuras uma face limpaum preâmbulo com que arrepiar a incidênciaem campo corpo de concentraçãoum segundo de nitidezformas mínimas de transitoriedadenutridas no aluimento da terra às vezes a adequada ciência pededo inexplicável uma […]
Acordo de madrugadae a Caravaggio pergunto por mimàs vezes penso que sou nós doisse o digo sinto frioporque não poesia em vez de negro?só as formas se salvamem tempo de esquecimentojá ninguém pede palavrasmelhor assim— Ou não, Caravaggio? *-*-* Como estar caladonestes dias de insónia?os poetas parecendo inúteissão as suas palavrascomo a rapariga da gelatariaem […]
LEONARDO Ecco che il grande uccello in volo si è levato:e l’ampia piana scruta in alto veleggiandoassorto tra le ali come un pensiero inquietoche sale sale ancora, sfidando l’orizzonte – nella strettura in fondo, dove s’insinua il fiume,l’ostacolo intuisce, il bloco che sbarravail passo verso il mare, e il lago primordialetra i colli e le […]