Inéditos de Manuel Silva-Terra
Mãe, nossa Natureza sagrada soberana na Terra e no Céu e nas Águas santificado seja o Vosso nome somos do Vosso reino foi feita a Vossa vontade assim nas minas quanto na Troposfera a nossa ração de Petróleo nos dai hoje alguns de nós não conseguem perdoar-vos assim todos não seremos perdoados por tanta gulodice. […]
Falta-nos a permissão para narrar. Edward W. Said O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. Elie Wiesel A Palestina segundo Heródoto I Jerusalém Um autista é um homem livre, livre num certo firmamento de jaula Eyad al-Hallaq corria mas não era culpado era na cozinha aluno […]
Música Convoco o rumor das teclas de um piano em sonata de beethoven. E ouço o grito intenso do silêncio, o vento enlouquecido, um inaudível lamento, uma luz no secreto rosto de deus. É o coração seduzido pela sublimidade da música. Como se fora água pura em diálogo com a terra fecundada. Como se […]
Texto de Apresentação de uma casa no outro lado do mundo
“Uma casa no outro lado do mundo” de Victor Oliveira Mateus Há uma consciência vigilante, em vias de desaparecer e aparecer porque estamos em face da essência da poesia: “é uma casa com pedras de muitas cores/nela todos os dias nasço/morro/mas sempre recomeço” (“a casa”), relacionando-se, por um lado, a isotopia da casa com […]
“12 Textos de prosa poética” AS NOITES QUANDO AS NOITES SE ILUMINAM Quando as noites se iluminam Quer dizer que alguém acendeu todas as letras Do alfabeto, conjugando surpreendentemente O xadrez das palavras e das frases, e não Sucumbiu a esse golpe mortal! Moveu-se nos labirintos de um jardim de Aromas e inspirou os […]
A problemática de Deus em José Saramago
Caim ou a natureza de deus Caim (2009), o último romance publicado em vida do autor, um pequeno volume mas singular e precioso por nele Saramago exprimir de um modo absoluto e transparente a sua visão do mundo e a sua oficina de escrita. Caim é igualmente o cúmulo da “fase da pedra”, iniciada em […]
EM ESFORÇO DE INVESTIGAÇÃO Sentes o mais longo tempo da tua vida numa só palavra.Eis o mundo nocturno em esforço de investigaçãoque em plano mais fechado somente expressa a vidaem profundidades graves e insondáveis. Escrita que é para ti um peso que se tenta reformular –e validar, em densidade, o sentido suspenso. Descobres então que […]
1 Parto em quatro o círculo da pizzaum para mim, outro para tie mais dois que dou às aves de partida um copo de vinho tintoreserva ainda deste sabor por tina imobilidade que nos comeas palavras excessivas de queijo de ervas daninhasa crescerem-me no corposolto inúteis impropérios parto ainda as fatias que me cabeme mastigo […]
Ensaio sobre O Livro de Horas de Rilke
O vôo onírico de Rilke em O Livro de Horas «Aqui está um homem que decidiu ser um guerreiro solitário do poema.» Rainer Maria Rilke [1] A trilogia, que constitui O Livro de Horas[2], de Rainer Maria Rilke, consolida a viagem espiritual de Rilke, a par da maturidade poética, já bem visível em […]
Um ensaio (Auschwitz e a Genialidade do Mal)
“Onde o “Diabo tirava notas.” Auschwitz e a “Genialidade do Mal”. (Uma homenagem a Claude Lanzmann (escrito dias após a sua morte, 5 de Julho de 2018) Ainda desolado pela morte de Claude Lanzmann, o cineasta que mais admiro, escrevo com angústia. Vejam toda a sua obra cinematográfica “Shoah” (palavra hebraica para Holocausto) e filmes […]
Três poemas do livro "Altos Cumes"
Alvão Começava com a pulsação de um poemaa bater no peito dilatadoe com a mão inábil tentava afinaro assobio dos seus lábios ardentes Sentia o apelo dos lugares elevadosnas suas pernas e nos seus ombrosque o erguiam numa imprudênciade sangue quente pelos caminhos E lá do alto o vale deslizavasobre um glaciar por entre as […]
seis horas e uma claridade incipiente chispa sombras pendulares nas minhas pálpebras. os olhos resistem ao repto e retardam o encandeamento, sugerindo uma realidade de interpretação pessoal. o que está fora é uma tosca aproximação ao que está dentro. enquanto a luz se vai fazendo adulta, a memória desdobra o que foi em tudo o […]
Um ensaio sobre a poesia de Inês Lourenço
SEM MUSA E SEM REDENÇÃO: A POESIA DE INÊS LOURENÇO «Emudecer o afe[c]to português? Amputar a consoante que anima a vibração exa[cta] do abraço, a urgência tá[c]til do beijo? Eu não nasci nos Trópicos; preciso desta interna consoante para iluminar a névoa do meu dile[c]to norte.» Inês Lourenço, in Coisas que nunca, & etc., Lisboa, 2010, p.43. «I have let things slip, […]
Uma certa tensão sexual ou o parlapié do porco Há mais de quatro anos que não lanço um piropo. Desde que saiu aquela lei que proíbe um gajo de se meter com as miúdas. Nunca percebi qual é o problema, posso assegurar que a minha fraca criatividade nunca ofendeu ninguém. Sempre me limitei […]
AVISO 1. Alcancem o incenso branco [do nevoeiro do mar] que chega ao fim.Desnudem-se para que ao cair do dia, entrem, não desdenhem.(Aviso: Segurem as garrafas mesmo depois de beberem.Neste areal há sempre franjas arroxeadas, emaranhados, e mais parafernália. E a incerteza à sombra disso.)Triste? (Ouço a lamentação.Um outro amigo ri com um pé na […]
a estante é, em si, umahistória: as tuas escolhas,os teus dedos sobre o brancoagora que é tudo acabado:levo os meus livros, despimosessa estante: uma nudezque não consigo encarar: fui eu, texto, que meservi de ti: da tuasubjetividade, dessa loucavontade de transformar imagens,emoções, em palavras:amaldiçoo-te por isto, porme quereres matar: na perspetivado texto, isto é: na […]
COCAÍNA eu podia ter arrancado aos jardins a falsa verdade. abrir a grade imersa num saco de plástico pequenino onde guardavas três ou quatro filas de coca. ajudar-te a penetrar as pregas de um escuro cristalino onde marchava o argumento mais astuto. viajante atrás de um mal de seda. memória doce de um traficante a […]