PORTO ALEGRE BY NIGHT
As luzes acendem nos canteiros dos edifícios Art Déco,
a música vem dos bares velados de sonâmbulas criaturas,
cheiro de fritura das chapas quentes dos restaurantes,
um casal estala línguas amorosas ao gosto gelado da cerveja.
Guardo tudo nos meus olhos antes que desapareça,
vi as águas da última enchente formarem a cidade submersa,
o tempo parece ainda estar suspenso.
Vagabundos caminham na encruzilhada do velho Mercado,
tilintar de moedas e dadinhos em copos sobre o mármore da mesa,
o perfume do café lembra manhãs da infância no campo.
Um chope para matar a sede, a saudade da cidade inexistente
ainda teima em viver nas minhas pupilas naufragadas,
a cidade se desmancha ao pôr do sol, a estrela pousa no Chalé da Praça XV.
Vou na caminhada ouvindo versos de Quintana –
ruazinhas abrem suas janelas para as jovens em flor.
No outro lado da rua os punks estão indo para o bar do Bom Fim,
velhos hippies cabeludos escutam o último concerto de rock.
Porto Alegre se encanta na canção boêmia de Lupicínio,
tudo fica leve e livre e não precisa de explicação.
–-*
PORTO ALEGRE É UMA PONTE
Andar em Porto Alegre é encontrar a fonte,
a fronte que atravessa a cidade na ponte,
no Largo dos Açorianos é passado
e presente, enquanto nós somos ao lado.
O céu azul é um presente além do tempo,
pedras, arcos e as pessoas que caminham
para o trabalho ou levam seus cachorrinhos,
os namorados que esperam sempre o amor,
ou aguardam alguém que esteja ali ao sol,
punguistas, operários, todos sem eira,
nem beira, e a cidade se faz para todos,
do poeta e dos pássaros, dos burocratas
de gravata e do hippie da paz e amor.
Porto Alegre vive em nós o mundo inteiro.
–-*
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