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das bruxas  (Conto)
By Ana Paula Dias Posted in Contos, Literatura, Portugal on 14 de Julho, 2026 1082 words
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das bruxas

No dia em que me levaram à bruxa, eu ainda não sabia que os adultos são capazes de vestir a crueldade com a roupa da preocupação. Disseram-me que era para o meu bem, como se essa frase pudesse tornar limpo o medo que me subia pelas costas. Eu era uma criança difícil, diziam. Diferente, diziam em voz baixa, como quem fala de uma mácula antiga ou de uma doença escondida. Não sabiam o que fazer comigo e, por isso, levaram-me a alguém que prometia endireitar o que neles parecia torto em mim.
A casa ficava num lugar que a memória tornou mais estreito do que talvez fosse. Lembro-me de um corredor escuro, de uma porta que rangeu e depois da cozinha: amarela, húmida, fechada sobre si própria. A luz não entrava ali; apodrecia. Prendia-se aos azulejos sujos, à toalha encerada, aos armários inchados, às panelas negras penduradas na parede. O ar sabia a óleo velho, pó, fumo e ervas secas. Havia frascos alinhados numa prateleira, alguns com líquidos escuros, outros com pedaços irreconhecíveis e ramos amarrados junto à janela, pendentes e imóveis como pequenos cadáveres esquecidos.
A mulher apareceu sem pressa. Era alta, morena, de braços nus e mãos grandes, mãos de quem sabia mexer em coisas quentes, coisas mortas, coisas que uma criança não devia ver. Pôs-se a minha frente e estudou-me como quem estuda uma peça de roupa que não serve bem. Tinha olhos castanhos e frios que não pestanejaram uma vez enquanto me olhavam. Falava pouco, mas cada palavra parecia já ter sido cumprida antes de ser dita. Disse que metia as mãos numa frigideira de óleo a ferver sem se queimar. Disse-o quase com doçura, e essa doçura foi o que me gelou. Os meus olhos fixaram-se nas suas mãos, nas veias que sobressaíam sob a pele morena. Não havia marcas de queimaduras, apenas linhas de vida profundamente gravadas.
— Tens uma coisa dentro de ti que os outros não têm — e a voz dela era plana como um lago morto.
Os adultos escutavam-na em silêncio. Não riam, não duvidavam, não me defendiam. Naquele instante percebi, com a lucidez terrível das crianças assustadas, que eles acreditavam mais nela do que em mim.
Hoje penso que me levaram ali porque eu não cabia na linguagem deles. Chorava quando esperavam silêncio, calava-me quando exigiam resposta, assustava-me com ruídos, cheiros, rostos próximos demais. Talvez sentisse o mundo com uma pele mais fina. Mas, naquele tempo, uma criança diferente não era escutada; era corrigida. Se não obedecia, era mimo. Se tremia, era fraqueza. Se recusava o toque, era teimosia. Se via perigo onde os outros viam normalidade, era mau-olhado, quebranto, feitiço. E então entregavam-na a
mãos estranhas, na esperança de que alguém arrancasse dela aquilo que os incomodava.
Os meus pais não eram monstros; talvez fosse isso que tornava tudo mais difícil de compreender. Eram gente do seu tempo, feita de medo, cansaço e ignorância. Tinham aprendido que aquilo que não se explicava se punha nas mãos de Deus, dos santos ou de mulheres que murmuravam rezas antigas sobre tigelas de água. Não conheciam palavras para a inquietação, para a sensibilidade, para a angústia de uma criança. Conheciam apenas conselhos de vizinhas, avisos de familiares, histórias repetidas à noite: crianças tomadas por sombras, invejas que entravam pelo olhar, almas que se agarravam ao corpo dos vivos. E porque não sabiam, acreditavam.
Naquele tempo, bastava uma criança ser calada demais, nervosa demais, sonhadora demais, para que alguém dissesse que havia ali coisa feita. As doenças tinham nomes vagos, os sofrimentos eram confundidos com castigos, e o desconhecido encontrava sempre abrigo no sobrenatural. As pessoas viviam entre missas, promessas, benzedeiras e histórias de aparições; falavam de bruxas com a mesma naturalidade com que falavam da chuva. O mundo parecia cheio de sinais: um copo que se partia, um cão que uivava, uma febre sem causa, um pesadelo repetido. Tudo podia ser aviso, praga ou destino. E eu sentia-me transformada num desses sinais.
Ela aproximou-se mais. Não sei se trazia alguma coisa na mão ou se foi o medo que inventou o brilho. Lembro-me apenas da mesa atrás de mim, das pernas dos adultos à minha volta, da porta longe demais, da minha respiração presa num peito pequeno. O meu corpo inteiro soube antes de mim que tinha de fugir. Mas não havia por onde. Olhei para a minha mãe, à espera de encontrar nela uma saída, uma palavra, um gesto que dissesse: basta. Ela desviou os olhos. O meu pai permaneceu imóvel, sério, como se a sua autoridade dependesse de não ceder ao meu pavor. Nesse silêncio deles, senti-me abandonada. Não era a mulher que mais me assustava; era perceber que os meus próprios pais tinham entregado o meu medo a uma crença mais forte do que o amor. Então gritei. Gritei como se o grito fosse uma faca, uma pedra, uma janela partida. Gritei para rasgar aquela cozinha, para acordar os adultos do transe, para impedir que a mulher chegasse até à parte de mim que eu ainda não sabia proteger.
Desistiram, não por compreenderem, mas porque o meu terror fez demasiado barulho. Alguém murmurou que era melhor deixar estar. Alguém disse que eu tinha o demónio no corpo, ou talvez tenha sido apenas a memória a guardar essa frase no lugar onde cabiam todas as outras. Alguém me puxou para fora. A porta fechou-se atrás de nós, mas a cozinha não ficou lá dentro. Veio comigo, colada à garganta, escondida no cheiro a óleo quente, na luz amarela das tardes, nas vozes demasiado mansas. Só muito mais tarde compreendi que também os meus pais tinham sido crianças ensinadas a temer aquilo que não entendiam. Mas essa compreensão não apagou a ferida. Durante muitos anos, sempre que alguém dizia que era para o meu bem, uma criança dentro de mim voltava a encostar-se à parede, cercada por adultos, à espera de que a bruxa levantasse as mãos.


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