Tudo dói na crueza das manhãs:
mil vezes devaneio
mil vezes palmilho a mesma rua
mil vezes anoitece
mil vezes a noite te oculta como barco.
Hoje és tu que me procuras
na orla dos ninhos
na sombra despojada de um arbusto,
na pluma da cama desalentada
no apogeu ofegante da
demanda nas cavernas da pele.
Tu, o mais nu dos pronomes.
Inédito
–-*
Não, elas não são esculturas nómadas. Nem lagos
vazios. Nunca serão caminho desvirtuado de flores.
Resistem à cegueira de quem as pisa.
Não lhes voltem a cara se os seus traços não se
aproximam dos de afrodite.
Elas mostram no rosto o viço das cerejas em tardes
de calor.
São fontes e corre delas água fresca.
De mármore ou granito róseo e cinzento, ocultam na
alma o cinzel cativo de camille e o escopro
arrebatado de rodin.
Para não cristalizarem de tristeza ausentam-se do
silêncio do esquecimento.
Reaparecem. Trazem rostos e mãos de carne.
Beijam com lábios escarlates.
As mulheres.
In Nas mãos a sede dos pássaros, Poética, 2024.
–-*
Tenho andado a esconder
lugares meus entre marés.
Comove-me o toque demorado:
devolve-me inteiro o silêncio,
nunca o eco.
No rochedo maior
busco ainda o meu pedaço de noite,
o metro do meu caminho,
o remo afundado do meu barco
o que perdi de um poema, distraída,
as sobras de tinta deixadas a secar no céu.
Inédito
–-*
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