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Poesia portuguesa
By Alberto Pereira Posted in Literatura, Poesia, Portugal on 13 de Julho, 2026 604 words
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II (O Espelho)

Sou de uma espécie
que tem código postal selvagem,
garganta sem número fiscal.
Nunca fui infiel aos vulcões.
Tenho na laringe
uma projecção de lava genuína
e é nos alvéolos do bosque
que arquitecto a embolia da faca.

Na cidade,
os homens,
lenda carbonizada
onde se fabrica a vénia.

Vão florindo os patrões,
inquilinos do Mein Kampf.

O amor industrializado.
As suas mecânicas glaciares.

Os ambulantes úteros
escrevendo múltiplos cometas.

O sexo,
condomínio moderno
que respira
os mesmos rombos
da Idade Média.

Estão longe os dias
que flutuavam no peito
as tonalidades de Malevich.

A infância,
cume no verde epitélio de tudo.
As artérias
escoltando dicionários inabitáveis.
O decote do pólen.
A maternal equação
que caducava fantasmas.

Mais tarde,
a montanha em burnout.

Persigo as paisagens sonoras
de Arseny Tarkovsky:

A alma já está farta
De ficar confinada dentro
De uma caixa, com orelhas e olhos
Do tamanho de moedas,
Feita de pele – só cicatrizes –
Cobrindo um esqueleto.
Pela córnea ela voa
Para a cúpula do céu,
Sobre um raio gélido,
Até uma rodopiante revoada de pássaros,
E ouve pelas grades
Da sua prisão viva
O crepitar de florestas e milharais,
O troar dos sete mares.
Uma alma sem corpo é pecaminosa
Como um corpo sem camisa:
Nenhuma intenção, nem um verso.

Somos a estirpe
que se alumia de gaiolas.

*-*-*

I (Nostalgia)

Há muito tempo
que afoguei o e-mail de Deus.

O meu corpo,
sete longas-metragens.

Tenho agora
um realizador nos pulmões
e o oxigénio
com a democracia na cave.

Sou de uma nação
onde o livre-arbítrio
está cercado de melanomas.
Offshores em todos os tentáculos.
Os tribunais,
bouquet de recursos.
E a fraude,
réptil que prescreveu.

Sou nómada,
clima semântico
que não admite cifoses.
Atravesso os catálogos regressivos

com a laringe na insónia.
A garganta,
sniper do totalitarismo.

O caudal austero das ditaduras
quer uma farmacologia
de mentes inócuas
que fiquem sitiadas.

As células,
cancerígena matéria
a leiloar a avalanche.

O exílio é um roedor
e foi em Tonino Guerra
que li a melhor triagem do aluimento.

Quando visitaram a casa, no velho quarteirão da cidade,
encontraram Shirikawa já morto de fome, no seu quarto de dormir.
O apartamento tinha ainda dois outros aposentos. Ambos sem mobília (…)
Na terceira sala, o pavimento apresentava-se coberto
por um manto de arroz muito branco.
Shirikawa nascera em Chichibu, uma aldeia no Norte do Japão (…)
Quando o levaram com a liteira, alguém experimentou deitar-se na cama (…)
Com a cabeça pousada sobre o travesseiro, para além do corredor,
viu o quarto com o pavimento de arroz. Saboreou a doce contemplação
da neve pousada e, até a cor de cinza da parede do fundo
parecia inverter-se para formar um céu frio e invernal (…)
Shirikawa, desde há alguns anos, sofria com saudades da neve.
Aquele era um lugar onde nunca nevava.

Mesmo proscrito,
recusa que a Nostalgia
desmantele qualquer desfiladeiro
para obteres sândalo
com a amplitude
da Nona Sinfonia de Beethoven.

Quem tutela as metástases do tempo?

Não há catedral
que contorne infinitamente a morfina.

*-*-*

Alberto Pereira nasceu em Lisboa. Licenciado em enfermagem e pós-graduado na área forense. É membro do PEN Clube Português. Publicou treze livros. A sua obra encontra-se traduzida em onze idiomas. Foi distinguido com vários prémios dos quais se destacam: Prémio Literário Conto por Conto (2011); Prémio Literário Agostinho Gomes (2013); Prémio Literário Manuel António Pina (2013); Prémio Internacional Cesar Vallejo (2021); Prémio de Literatura Clarice Lispector (2022) e Prémio Ulysses (2023).

© Foto da publicação da autoria de José Lorvão.


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