Escrever a mãe, escrever-se:
Ocupação da mãe, de Paola D’Agostino
Publicado em junho de 2026 pela Companhia das Letras, a escritora luso-italiana – ou lisboeta-napolitana, como, por vezes, tem sido definida em entrevistas – apresenta ao público português uma narrativa autobiográfica centrada na figura da mãe, Ida Maria. Diagnosticada com cancro aos 36 anos, Ida Maria iniciou um ciclo de quimioterapia que teve de interromper para prosseguir com a gravidez da filha. Confrontada, em 1975, com a alternativa entre prosseguir o tratamento ou levar a gestação até ao fim, num contexto em que o aborto permanecia ilegal em Itália, levou a gravidez adiante. Sem se esgotar numa leitura estritamente individual, esta história inscreve-se no cruzamento de constrangimentos históricos, imaginários religiosos e expectativas de género que, durante décadas, consagraram o sacrifício materno como uma virtude incontestável. A maternidade surge, assim, não só como experiência íntima, mas também como lugar de inscrição de forças políticas, religiosas e jurídicas que fazem do corpo feminino um espaço eminentemente político. Talvez, por isso, a autora convoque, no capítulo «As leis da vida», uma fotografia de Francesca Woodman pertencente à série Angels, que lhe pareceu constituir «a tradução perfeita do sacrifício da minha mãe» (pág. 92). A coincidência adquire contornos ainda mais perturbadores, quando se descobre que o lugar e a data da fotografia (Roma, 1977) coincidem com os da morte de Ida Maria. Como se a imagem já aguardasse o corpo ausente que a viria a habitar.
A morte precoce de Ida Maria privou a autora não só da presença materna, mas também de uma convivência plena com a língua e a cultura transmitidas pela mãe. É a partir dessa dupla ausência, afectiva e linguística, que a narrativa avança, perseguindo as ressonâncias de uma língua que chegou à filha mais como eco do que como transmissão («Desde o princípio das palavras, a minha língua materna foi uma ficção negociada», pág. 69). Daí este «livro-diálogo» ter sido escrito numa língua de adopção e de eleição, isto é, maternizando uma língua que, à partida, era estrangeira, e maternizando-a, talvez, ao longo de uma travessia a que chamamos tradução (e, por sinal, há um capítulo intitulado «Uma tradução terrestre») e que, por vezes, é a chave de uma descida mais funda ao eu: a auto-
tradução. Noutras palavras, eu sou a língua do outro; ou dito ainda de outro modo, «je n’ai qu’une langue et ce n’est pas la mienne», Derrida dixit.
Com efeito, esta narrativa autobiográfica escrita numa língua outra – mas, ainda assim, viva e entranhadamente íntima – permitiu à escritora interrogar, com alguma distância, a alteridade que atravessa a sua relação com o idioma camoniano, e permitiu-lhe, sobretudo, dizer a coisa não-dita: nomear – e escrever sobre – os corpos (de mulheres), essa matéria que estremece quando as sílabas lhe dão nome, outrora obliterada por narrativas de matriz católica; nomeá-los, desta feita, com consciência linguística, uma vez que o que se cala, aos poucos, deixa de existir. Daí Paola D’Agostino ter escrito, ou escrevivido, a mãe e à mãe «como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra» (C. Lispector, in Água Viva, 2012, p. 13). Clarice fotografa, Paola fotovive, consoante escreve no IV capítulo da primeira parte deste livro («Se eu fotovivo»). A imagem, aliás, desempenha um papel crucial nesta narrativa verbo-visual, porquanto os fotogramas são alguns dos estilhaços que restam de Ida Maria, juntamente com as histórias que dela persistem na memória familiar e na voz dos habitantes da aldeia. De imagem em imagem, palavra após palavra, Paola D’Agostino reconstrói uma língua, para, agora, ela e a mãe, nomearem o mundo. «Dammi la mano!», escreve a autora na página vinte e três. A mão surge aqui como lugar de encontro entre duas temporalidades e dois corpos que coexistiram durante um tempo escasso: o da mãe morta e o da filha que vai em busca de respostas. Estender a mão é encurtar a distância da morte; segurá-la é reinscrever a filiação no corpo da língua e talvez seja esse o gesto mais fundo deste livro: dar a mão à mãe para que ambas possam, finalmente, caminhar lado a lado. A escrita torna-se, destarte, um gesto de revitalização. Ida Maria morreu no corpo, mas sobrevive na pele de quem, já mulher adulta, a resgatou; e passou, inclusive, a existir numa língua com que Ida Maria nunca sequer sonhara. Afinal, Ida Maria viveu duas vezes: na vida que lhe foi dada e nessa segunda vida que a escrita tornou possível.
Entre essas duas vidas – aliás, três, incluindo a de quem escreve – corre também um motivo imagético, o da água, entendido como elemento matricial e, potencialmente, feminino, que une aquilo que a geografia e a morte parecem ter separado: primeiro, a água de uma baía do Sul de Itália, e, mais tarde, a do Oceano Atântico, isto é, de um espaço de travessia, de separação e, em simultâneo, de encontro. O filósofo G. Bachelard (1989) via na água um elemento embalador, não muito distante do embalo da mãe. Diga-se de passagem que, na nossa língua, assim como noutras línguas
românicas (cf. catalão, francês, espanhol, italiano e romeno), as palavras «mãe» e «mar» parecem aproximar-se numa coincidência fónica inicial, em que a consoante bilabial abre ambas numa mesma respiração sonora. Como se a língua guardasse a memória de uma ligação primordial; como se, entre o mar e a mãe, persistisse a mesma promessa de abrigo.
Importa, por fim, sublinhar que Ocupação da mãe, apesar da sua hibridez genológica, nunca perde a sua coesão interna. Entre a narrativa autobiográfica, alguma reflexão ensaística e uma dicção por vezes próxima do lirismo, Paola D’Agostino convoca campos tão diversos como a fotografia, a filosofia, a literatura, a pintura ou a História italiana do século XX – nomeadamente, as questões do aborto, da maternidade e da condição das mulheres –, sem dispersar o núcleo reflexivo da obra. Dividido em duas partes e estruturado mediante um subtil jogo de analepses e prolepses, o livro faz convergir múltiplas temporalidades e vozes em torno de uma mesma interrogação: como dar corpo a um nome que a morte tornou ausência? Em redor de Ida Maria orbitam outras figuras – o marido, designado como «o Turco», sem jamais adquirir uma identidade plenamente nominável, os filhos, Isabella (sua irmã), as amigas, algumas testemunhas da aldeia –, as quais contribuíram para a reconstrução de uma memória simultaneamente individual e colectiva.
Não deixa de ser significativo o facto de a obra ter sido concebida na língua de Camões e de Pessoa, sendo este último uma das razões que levaram a escritora a mudar-se para Lisboa em 1998. Antes de Paola D’Agostino, apenas Antonio Tabucchi (1943-2012) escolhera esta língua para uma incursão ficcional de semelhante alcance, comRequiem (1991). No caso de Paola D’Agostino, o português é a língua através da qual uma filha aprende a habitar uma ausência, traduzindo um silêncio em sons, uma herança interrompida em possibilidade de diálogo; um diálogo que é, entre outras coisas, uma longa carta a Ida Maria. E talvez seja essa a mais bela ocupação da mãe: continuar a habitá-la através das palavras, até que a língua se torne, ela própria, uma forma de abraço.
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Matteo Pupillo é doutorado em Literatura pela Universidade de Évora e membro colaborador do Centro de Estudos em Letras, da mesma instituição, e do CLEPUL (Universidade de Lisboa). Desde 2023, ensina Língua e Literatura Portuguesas na Sorbonne Université, tendo, igualmente, lecionado em Itália e em Portugal. Desde 2025, encontra-se habilitado para o exercício das funções de maître de conférences (secção 14, Estudos Românicos). Participa regularmente em colóquios internacionais e é autor de capítulos de livros, entradas de dicionários e artigos publicados em revistas científicas. A sua investigação centra-se, sobretudo, na literatura portuguesa clássica e contemporânea, com especial incidência nas representações do corpo e na escrita de autoria feminina dos séculos XX e XXI. Entre outras atividades, integra projetos de investigação, comités editoriais de revistas e diversas associações científicas. No âmbito editorial, traduz do francês e do italiano para português. A sua mais recente tradução é Lufada de ar, de Annie Le Brun (Barco Bêbado, 2026). Monografia no prelo: «Da volúpia,da mágoa e da alegria»: o estudo do imaginário corporal na poesia de Florbela Espanca, Gilka Machado e Alfonsina Storni (Imprensa da Universidade de Évora, 2026).
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