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Recensão do livro My Way de Natividade Ribeiro
By Filipa Vera Jardim Posted in Literatura, Portugal, Recensões on 24 de Maio, 2026 1374 words
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O Espaço, o Tempo, e a Casa – Os lugares habitáveis em My Way de Natividade Ribeiro

   My Way - Diário e escritas paralelas, de Natividade Ribeiro, inscreve-se numa tradição de escrita fragmentária e intimista, marcada pela diluição das fronteiras entre a autobiografia, o ensaio, o diário e a ficção. Trata-se, pois, de uma obra assumidamente híbrida e memorialista, onde a poesia de particular maturidade estética e reflexiva tem também o seu lugar. Uma obra de plenitude que assume a mistura de géneros sem receios. A autora escreve a partir do quotidiano, cruzando memórias, viagens, introspeção e observação cultural. Os espaços centrais do livro - Macau, Algarve e São Miguel - funcionam não apenas como cenários físicos, mas como autênticos territórios emocionais e identitários.

Em My Way, a autora não nos traz apenas uma acumulação diarística de impressões quotidianas. Pelo contrário, o texto constrói-se como uma verdadeira poética da memória e da deslocação, onde o sujeito escreve para compreender simultaneamente o mundo, o seu tempo e a própria experiência de existir. A escrita organiza-se aqui, através de fragmentos, notas meditativas, poemas, observações do quotidiano e momentos de reflexão que recusam deliberadamente uma progressão narrativa estável. Esta fragmentação não corresponde a uma dispersão estrutural; ela constitui, antes, uma estratégia coerente com a própria lógica da memória, também ela descontínua, associativa, incompleta e imaginativa. P Podemos por isso dizer, que My Way, se aproxima de uma tradição moderna da escrita fragmentária, que encontra em Vergílio Ferreira um dos seus antecedentes mais significativos da literatura portuguesa, por exemplo em Conta Corrente ou emPensar, onde o fragmento funciona como forma privilegiada de pensamento e autorrepresentação. Há, no entanto, neste My Way de Natividade Ribeiro uma diferença: enquanto que em Vergílio Ferreira predomina uma inquietação metafísica de pendor existencialista, a escrita de Natividade Ribeiro revela-nos, uma maior serenidade contemplativa.
A dimensão espacial adquire, nesta obra, um papel fundamental, tornando-se ela mesma um elemento estruturante. Macau, os Açores e o Algarve não surgem apenas como cenários de referências, mas constituem, eles mesmos, uma geografia interior. Um espaço que é extensão da consciência da própria narradora. A viagem concreta, tantas vezes penosa, quer física quer emocionalmente, transforma-se assim, num instrumento de reflexão, correspondendo cada deslocamento geográfico a um percurso interior onde identidade e memória caminham de mãos dadas. Podíamos, a certa altura, ser levados a um certo paralelismo com Claude Magris, na sua viagem pela Europa Central, em Danúbio, da década de oitenta do século passado, não fosse a dimensão sensorial marcante da escrita de Natividade Ribeiro. Efetivamente, a experiência dos lugares desta autora nunca é tratada em termos puramente históricos ou civilizacionais, ela emerge sobretudo através da perceção sensível e da construção afetiva das experiências nos lugares. Neste sentido, este My Way, enquanto caminho pessoal, nunca pode ser confundido com uma escrita de viagens.
Macau, aparece-nos como o território vivido, parte do percurso de vida nunca esquecido, e agora revisitado nas experiências quotidianas da convivência cultural, recusando o orientalismo superficial.
Há sempre um início e um fim de viagem. A minha última pela vida, acabava de se iniciar (p.25)
Macau é lugar de “casa” e de ”casas”, numa simbiose entre a arquitetura das casas habitáveis da exposição que leva a escritora a revisitar este lugar e das casas imaginadas e vividas. A casa adquire um papel fundamental nesta viagem. A casa e as casas dos diversos lugares, têm, pois, um significado profundamente simbólico, ultrapassando a ideia convencional de habitação, para se afirmarem como espaço de memória, identidade e construção interior:
Olhemos por fim as sombras e as luzes das nossas casas. E de todos os lugares onde. Neste tempo de pouco tempo já. Rapidamente tudo acertado sem relógios: co-mes a horas certas, dormes a horas certas, descansas a horas certas, fazes os teus trabalhos-livres a horas certas (…) (p.144)
Sonho muito com casas. Quase sempre metidas em ruas e ruelas de cidades labirínticas que identifico como Macau e por elas deambulo (…) A primeira na rua de S. Miguel, como bom agoiro, depois de ter feito a primeira travessia Hong Kong/Macau(…) A segunda casa na Colina da Guia, com varandas de fachada detrás a dar para a vegetação de encosta (outra vez o verde a lembrar-me da ilha) (p.122)
Depois a casinha em Coloane, uma casinha chinesa na marginal a olhar as montanhas da China (…) (p.123)
Percebe-se que a casa surge associada à necessidade de pertença, num mundo marcado pelas deslocações e pela mudança. A importância da casa em My Way, manifesta-se, sobretudo, na sua dimensão simbólica. Mais do que um local físico, a casa representa a procura de estabilidade e de sentido, perante a fragmentação do mundo contemporâneo. A narradora move-se constantemente entre espaços físicos e memórias pessoais, transformando a escrita num exercício de reconstrução afetiva, onde a casa surge como um lugar simultaneamente concreto e abstrato: por um lado, existe enquanto espaço vivido, por outro, revela-se sobretudo como um refúgio interior, construído através das recordações e da relação subjetiva com os lugares. Um espaço onde o passado e o presente se misturam. Um espaço com abertura também para o futuro.
Aquela era a décima segunda casa num intervalo de vinte anos, contando com as casas em Portugal. Em breve faria cinquenta. ”Nómada” disse para mim própria e interroguei-me se a deriva acabaria ali ( p.129).
Um dos aspetos mais relevantes desta obra, reside precisamente na forma como Natividade Ribeiro articula espaço e identidade. Cada lugar visitado corresponde, efetivamente, a um estado emocional e a uma etapa do percurso interior da narradora.
Macau, por exemplo, assume frequentemente uma dimensão de fronteira cultural e existencial, enquanto os Açores evocam a intimidade, a origem e a contemplação. Esta pluralidade espacial reforça a ideia de que a casa não é fixa nem exclusivamente material: ela constrói-se na experiência, na memória e na escrita.
Em relação ao tempo, este é, a par do espaço, uma dimensão crucial deste livro. Em My Way, o tempo não surge como uma sequência linear, mas como sobreposição de camadas de memória. O passado emerge de forma contínua, frequentemente motivado por pequenos estímulos sensoriais ou associações involuntárias. A memória funciona aqui menos como arquivo e mais como uma reinscrição permanente da experiência, onde o sujeito se procura reconstruir através dos fragmentos dispersos das recordações.
Importa igualmente sublinhar a dimensão filosófica da obra. A formação intelectual de Natividade Ribeiro torna-se percetível na densidade reflexiva do texto. Questões relacionadas com o envelhecimento, a impermanência, a identidade e a finitude atravessam toda a escrita quer em prosa quer em poesia, embora nunca assumam a forma de um discurso teórico. O pensamento emerge, em equilíbrio entre a elaboração conceptual e a sensibilidade poética. Existe uma capacidade de converter pequenas observações do quotidiano em matéria de reflexão, o que revela a maturidade da escrita da autora. Esta maturidade manifesta-se também na confiança que a autora deposita no silêncio do texto. Efetivamente, My Way é um livro que recusa muitas vezes explicações e exige ao leitor a participação interpretativa. Não existem aqui respostas fechadas, oferece-se antes atmosferas, emoções, perceções e pequenos fragmentos de pensamentos. Trata-se, pois, de uma literatura de atenção e de escuta interior, de uma obra exigente, mas, precisamente por isso, significativa: um livro que não procura apenas ser lido, mas que se propõe a ser habitado.


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