Reencontro: a história de uma amizade durante a ascensão do Nazismo
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Reencontro (Editorial Presença, 2025) é aqui uma reedição da mesma obra datada de 1988. Deste livro de Fred Uhlman podemos assinalar duas opiniões significativas – a de Jean D’Omersson: “Eu sorria, enquanto lágrimas caíam dos meus olhos. Parei de ler. Senti uma felicidade imensa. Era como se, por entre as chamas do inferno, os anjos cantassem. Anunciei a tanta gente quanto pude: eis, aqui, uma obra-prima.”; a de Ian McEwan: “Uma obra-prima, de elegância rara. Este texto merece ter muitos leitores.” Reencontro é, pois, um relato de cariz romântico dotado de uma forte sensibilidade poética; uma novela intensa e inocente (que apenas a má-fé interpretativa poderá integrar em processos de sublimação homossexual) que nos narra a história da amizade entre dois jovens, na Alemanha, por volta dos anos de 1930, durante a ascensão do Nazismo: um judeu assimilado (Hans Schwarz, filho de um conceituado médico judeu, neto e bisneto de rabinos) e um alemão (Konradin von Hohenfels, pertencente a uma das famílias aristocráticas e nobres mais antigas e ilustres da Europa, descendente, portanto, de ricos aristocratas). Ao contrário do que seria expetável, os dois jovens desenvolvem uma amizade profunda e intelectual, através da qual partilham o seu gosto pela poesia, pela natureza e, até, por coleções de moedas.
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“Vi o Hohenfels à minha frente, e ele parecia hesitar e estar à espera de alguém. Abrandei o passo – tinha medo de o ultrapassar -, mas tive de continuar a andar, pois teria parecido ridículo não o fazer, e ele podia interpretar erradamente a minha indecisão. Quando quase o alcançara, ele virou-se e sorriu para mim. Depois, com um movimento estranhamente canhestro, e ainda hesitante, apertou a minha mão trémula. “Olá, Hans”, disse, e de súbito compreendi, para minha alegria e alívio e espanto, que ele era tão tímido e tinha tanta necessidade de um amigo como eu próprio.”
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(p 27)
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“Aos sábados, o Konradin e eu costumávamos apanhar um comboio vagaroso e ir passar a noite numa das muitas estalagens antigas, feitas de pesados troncos, onde se podia arranjar um quarto limpo e barato, comida excelente e vinho da região. Às vezes íamos para a Floresta Negra, onde os escuros bosques, a cheirar a cogumelos e às lágrimas de lentisco ambarino, eram percorridos por ribeiros de trutas em cujas margens havia moinhos de serração. Outras vezes vagueávamos até ao cimo das montanhas, e no azul da distância podíamos ver o vale do rápido Reno, os Vosgos cor de alfazema e a agulha da catedral de Estrasburgo. “
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(p 30)
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Em Reencontro estamos ante uma novela onde Hans Schwarz se apresenta como narrador intrusivo, polvilhando a intriga, aqui e ali, com dados das suas opiniões, seus desejos, suas frustrações. É uma narrativa linear, que, perto do fim, nos apresenta uma elipse tardia estrutural, um salto epilogal, já que será nesses últimos momentos que o dramatismo da narração atinge o seu apogeu e a sua máxima poeticidade, Fred Uhlman deixa, inclusivamente, para a última linha, num golpe de genialidade, o baque que simultaneamente irá ferir e aliviar um narrador, que até então parecia apresentar a sua omnisciência dotada de uma falha intransponível. Ao lado de Hans circula uma miríade de personagens secundárias caraterizadas com primor: os seus pais, Konradin, os pais deste, os professores (Herr Zimmermann, Pompetski) do colégio (Carl Alexander Gymnasium) e, por fim, os diversos colegas que com ele vivenciam aquela instituição e aquele momento histórico. A amizade entre Hans e Konradin decorria normalmente, enquanto na sociedade o “ovo da serpente” ia atingindo a sua forma última:
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“E assim passaram os dias e os meses, e nada perturbava a nossa amizade. De fora do nosso círculo mágico chegavam rumores de agitação política, mas o centro da tempestade estava longe – em Berlim, donde chegavam notícias de recontros entre nazis e comunistas. Estugarda parecia tão tranquila e sensata como sempre. É verdade que houve alguns incidentes menores. Apareceram suásticas nas paredes, um cidadão judeu foi importunado…”
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(p 32)
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A partir daqui a minha linha de leitura prossegue com uma bifurcação: a vida de Hans e a realidade social e política: relativamente à primeira, Hans passa a ser importunado por colegas e professor, os pais – até então fortemente alemães – apresentam um enorme nervosismo e decidem enviar Hans para os Estados Unidos:
“E assim ficou assente. Saí da escola no Natal e a 19 de janeiro, o dia do meu aniversário, quase exatamente um ano depois de o Konradin ter entrado na minha vida, parti para a América.”
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(p 71)
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Na vida de Hans dois acontecimentos irromperam como corolário destes momentos que eram os seus: o suicídio dos pais e a confissão de Konradin de que se sentia atraído pelo Nazismo. Nada mais podia esperar! Esta etapa da sua vida estava concluída! Quanto à realidade social e política, assiste-se ao aprofundar do conflito ideológico entre fações, que acabariam por proporcionar o fortalecimento do Nazismo:
“Havia enormes cartazes, vermelhos como sangue, por toda a cidade, a denunciar o Tratado de Versalhes e os Judeus; as suásticas e a foice e o martelo desfiguravam as paredes por toda a parte, e longos desfiles de desempregados manifestavam-se e contramanifestavam-se pelas ruas…”
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(p 66)
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O tal salto epilogal que referi anteriormente ocorre nas últimas páginas deste livro, quando e espaço e o tempo narrativos são já outros: Hans fala então a partir dos EUA.
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“E assim vim para a América. E cá estou há trinta anos.
Quando cá cheguei, entrei para o liceu e daí fui para Harvard, onde estudei direito. Detestei a ideia. Queria ser poeta, mas o primo do meu pai não estava para aturar disparates. “Poesia, poesia”, disse ele, “pensas que és um novo Schiller? Quanto é que ganha um poeta? Primeiro estudas Direito. Depois podes escrever a poesia que quiseres, no teu tempo livre.”
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(p 74)
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E, por fim, vemos um Hans casado com uma rapariga de Boston de quem tem um filho, com uma casa com vista para o Central Park, automóveis, uma casa de campo, a pertença a vários clubes judaicos, etc. E pensava ele ter tudo resolvido, quando recebe, do Karl Alexander Gymnasium, um apelo para que se possa construir um monumento à memória de todos os ex-alunos que haviam morrido durante a Segunda Grande Guerra. Seguia-se lista de todos os que haviam perecido durante o funesto evento do seu passado, ao mesmo tempo que a quietude conseguida de Hans vacila atacada por motivações várias e contraditórias. Por que é que ele haveria de ler a lista de todos esses ex-alunos mortos? E que motivos o impediam de o fazer?
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“Peguei no livrinho e estava prestes a rasgá-lo, mas no último momento detive-me. Couraçando-me contra a dor, trémulo, abri-o na letra H e li:
Von Hohenfels, Konradin, implicado na conspiração para matar Hitler. Executado.”
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(p 79)
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Esta a genialidade deste livro, que, numa mera linha e meia, recupera e reconfigura todo um sentimento que parecendo traído, afinal, tinha permanecido onde sempre estivera.
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Victor Oliveira Mateus
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