Eurídice
em meio à multidão, nossa íris anônima
cerzimos o abandono da pele entre os dedos
atravessa com o teu rosto o meu rosto
nasce em nossos corpos essa língua salina
toco com cuidado em um dos teus silêncios
irredutível à palavra
pulsa em teus lábios a esquiva de um peixe
respiras dentro do meu corpo o teu submerso silêncio
respiro dentro da tua língua a mucosa de um celacanto
dentro das águas, ventre e nuvem de sangue, ouço o teu grito
em nossos olhos, vibra a argila do silêncio, a palavra primitiva.
*-*-*
O lago
não levantaremos os pés
no altiplano impossível acenderás outra vez esse silêncio
quando arrastarmos nossos passos dentro do lodo denso e salino
do ar rarefeito, da poeira e da placenta da palavra, para se possuir a arte
de sermos terra, sendo sangue e sal, húmus sumário, sudário e solidão
memória de um barco adernado no deserto
matagais da água que viraram palha e fogo, miragens de um corpo vindo
não levantaremos os pés
dançaremos nus mais uma vez
o delírio, a dança acesa da vida.
*-*-
Cartografias
escreves a terra dos teus pés
pressentes no corpo a mudança
o sismo, a mandíbula do desconhecido
ergues as tuas raízes, levantas a mulher de ti
reconheces restos de carvão, o teu abandono vital
a tua impermanência, este rio subterrâneo que reescreves
migras em teu corpo a hera do amor, a tua fome além do medo
vives essa seiva, um outro corpo, correnteza, uma palavra nascente.
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