menu Menu
Poesia Brasileira atual
By Daniel da Rocha Leite Posted in Brasil, Literatura, Poesia on 29 de Setembro, 2026 266 words
Recensão de livro Claridade de João Luís Barreto Guimarães Previous Revista Oresteia Nº 17 - agosto de 2026 Next

Eurídice

em meio à multidão, nossa íris anônima
cerzimos o abandono da pele entre os dedos

atravessa com o teu rosto o meu rosto
nasce em nossos corpos essa língua salina

toco com cuidado em um dos teus silêncios
irredutível à palavra
pulsa em teus lábios a esquiva de um peixe

respiras dentro do meu corpo o teu submerso silêncio
respiro dentro da tua língua a mucosa de um celacanto

dentro das águas, ventre e nuvem de sangue, ouço o teu grito
em nossos olhos, vibra a argila do silêncio, a palavra primitiva.

*-*-*

O lago

não levantaremos os pés

no altiplano impossível acenderás outra vez esse silêncio
quando arrastarmos nossos passos dentro do lodo denso e salino
do ar rarefeito, da poeira e da placenta da palavra, para se possuir a arte

de sermos terra, sendo sangue e sal, húmus sumário, sudário e solidão
memória de um barco adernado no deserto
matagais da água que viraram palha e fogo, miragens de um corpo vindo

não levantaremos os pés
dançaremos nus mais uma vez
o delírio, a dança acesa da vida.

*-*-

Cartografias

escreves a terra dos teus pés
pressentes no corpo a mudança
o sismo, a mandíbula do desconhecido

ergues as tuas raízes, levantas a mulher de ti
reconheces restos de carvão, o teu abandono vital
a tua impermanência, este rio subterrâneo que reescreves

migras em teu corpo a hera do amor, a tua fome além do medo
vives essa seiva, um outro corpo, correnteza, uma palavra nascente.


Previous Next

keyboard_arrow_up