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Poesia portuguesa
By Virgínia do Carmo Posted in Literatura, Poesia, Portugal on 23 de Maio, 2026 266 words
Homenagem a Conceição Lima Previous Recensão do livro Contra Corvos de Elisa Costa Pinto Next

O meu espírito quebra-se

Desarvorado, o meu espírito bate
nos vidros embaciados das janelas
fechadas. Ferido de tantos desnortes,
vai sangrando incompreensões
e cansaços, a desaprender
todas as formas conhecidas de voar. 

Às vezes, uma oração: quer morrer
na areia quente de uma praia mansa 
no fim de uma tarde amolecida 
pelo calor de agosto.

Mas é outono no seu íntimo, sempre, 
e mar alto nos quartos da casa contra
as portas que não respiram há muito
o lado de dentro do corpo.

Esquecido das medidas dos lugares,
o meu espírito quebra-se contra a idade
dos ossos, desfaz-se em pó contra
as madrugadas, rascunhos de  cadáveres.

Bate nos vidros, nas paredes impenetráveis
deste mundo, nos cheiros nauseabundos
dos sonhos em decomposição.

E ferido de tantas lâminas suspensas
na contagem das inspirações,
vai sangrando o que resta de si,
gemido triste e lento a perder
a sua voz desmanchada.

inédito

Densidade

Cada vez mais frágil, tenho agora a densidade
de um vitral desbotado que Deus esqueceu
numa igreja qualquer, onde, de joelhos gastos,
o coração se prepara para ser exaustivamente
traduzido para a língua da solidão.

in Um corte leve na polpa dos dedos, Poética, 2026

Loucura

A janela está entreaberta
indecisa entre a brisa e o peso
de um rouxinol, mudo de nascença. 

A corrente de ar que nasce desconhece
o rigor cartesiano da sua formação
e crê ser melodia o seu rumor,
pauta deslocada da estante que
tombou entretanto, empurrada
pela vibração do canto imaginado.

Este meu devaneio é só para dizer,
na verdade, que sou íntima da loucura.

in Um corte leve na polpa dos dedos, Poética, 2026


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