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Cânone Silábico - livro de António de Névada (Recensão)
By Victor Oliveira Mateus Posted in Literatura, Portugal, Recensões on 11 de Novembro, 2025 1458 words
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O livro “Cânone Silábico, uma canção de amor” de António de Névada, publicado pela Nona Poesia, surge-nos como uma obra poética dotada de uma arquitetura multifacetada e com um subtil processo de metaforização, que acaba por conduzir o leitor numa viagem simultaneamente encantatória e plurissignificativa. Estas caraterísticas não conduzem, no entanto, a qualquer hermetismo, que possa vir a desembocar em algum tipo de solipsismo ou num gratuito experimentalismo. A obra encontra-se dividida em quatro Secções: Vozes em uníssono, Rapsódia em contraponto, Vozes em dissonância ou apenas Vozes e Coro Final. No que se relaciona com o estilo e com a estruturação dos poemas António de Névada nunca sai da esfera do verso livre, construindo os diversos corpos poemáticos numa heteróclita urdidura, onde a homogeneidade formal é sacrificada em função da riqueza de sentido e da musicalidade do verso, assim, podemos encontrar nesta obra desde o longo poema monostrófico (p 80) e da prosa poética (pp 213-219) até construções mais classicizantes, onde quintilhas desaguam, por vezes, em dísticos ou monósticos (pp 95-113) e até mesmo um díptico poético ((pp 75-76). O mesmo critério é usado na escolha das epígrafes, onde nos é dado ver desde excertos de clássicos: Homero, Píndaro, Ovídio, Horácio até poetas da atualidade: António Franco Alexandre, Ruy Belo, João Vário, Seamus Heaney e Ruy Belo, passando pela arte e pela filosofia: Walter Benjamin, Pina Bausch e Miles Davis. Enfim, sem qualquer tipo de espartilhamento ou de automutilação estilísticos a tudo deita mão António de Névada a quem interessa apenas a riqueza de uma arquitetónica poética, que, como um Cânone Silábico, ele pretende passar às outras Vozes como uma canção de amor.
Entrando agora na mensagem propriamente dita da obra, e que é – obviamente – tão-só uma das várias leituras possíveis deste livro, encontramos, na primeira Secção, o seguinte conjunto de tópicos: a viagem ou caminho, a demanda, a morada ou o habitar, a palavra ou verso ou ainda a poesia, a Voz ou Vozes, o cantar e o amor. Uma apurada observação dir-nos-á que esta panóplia de referentes não só recoloca o título do livro – agora como ponto de partida da urdidura poética –, mas também nos alerta para a deleitável aventura a que o leitor se irá entregar. Vejamos:
Logo no início:

“Nós somos o que amamos.

E os deuses hesitaram a medo
Aqui onde construímos a morada
A demanda em busca do epicentro
Do espanto!” (p 11)

Mas parece que a viagem e a procura apresentam desde o início algumas limitações:

“Não temos o verbo intangível
Da condição concisa a in finitude
Ou as constelações do peito.
Não tendes o esquisso do mundo
Tampouco o delírio e a magnitude
Na azáfama que adensa o poente
Ou o tremor. O temor da imensidão” (p 15)

Este poema chama-nos a atenção para duas antinomias que atravessam todo este livro: a) alcançar a palavra intangível é uma impossibilidade, contudo, o poeta, com as suas constelações no peito, jamais deixa de fazer versos; b) a viagem (vivencial? poética? física?) inspira temor, mas não há nela um fechamento absoluto, apenas imensidão e poente. Este balancear estilístico e ontológico atravessa toda a obra! Estas chaves da minha leitura são fundamentais para o que se irá seguir – exemplo: a efemeridade liga-se à insuficiência, à falha:

“Somos feitos desta estirpe
De homens e nómadas
Da qual não reza a história

Nem os sinais da terra firme.” (p20)

Eis uma das dualidades acima referidas, bem como a dialética desalento/ persistência:

“Soberbos no cimo da colina
De pé sob os brandais do vento
Árvores ressequidas no limiar
Da paisagem. Eis o que somos!” (21)

e:

“Vá faz-te às velas!” (p27)

Apesar da omnipresença, por mim já referida, do polo negativo, eis que a Abertura persiste:

“Contemplando o poente
E a beleza que sobreviva
Seguirei os últimos raios
Que pousam na serenidade
Dos teus ombros cansados.” (p 40)

ou:

“O veleiro à mercê do alvoroço
Cantamos sem mácula bailamos…” (p 46)

Se o fazer poético corre a par “com a demanda e a viagem”:

“A poesia inscreve-se no instante da vida” (p 77)

então depreendemos, que, à medida que nos aproximamos do final desta 1ª Secção, vai também ficando claro que na Voz individual do eu poético, por generalização, ressoa o universal, o plural, o “nos”, ou seja, “as Vozes em uníssono”:

“Pelo cais de abrigo não encontramos
Vivalma que nos afagasse o cansaço” (p 88)

“Que fúria nos levará
Aos mares da alma
Ou à areia da praia?” (p 90)

Se a voz da 1ª Secção se acabou por afirmar através do coletivo, na 2ª Secção a disjunção acena introduzindo-se mesmo, aqui e acolá, muitas vezes sob a forma do Outro. Outro esse, que, polissémico e caleidoscópico, se apresenta como a terra, a poesia, a mulher amada e/ou desejada:

“A terra ensina-nos a parábola
No cimo dela a fonte que goteja
O amor tatuado demoradamente no seu corpo.

Como é singela a mulher e o seu corpo esguio entre os seixos
Opereta cristalina na canção que atravessa a sala dançando
Quase latejante! Bela moçoila arregaçada e o tinto vinho
… … …
Saberei as palavras se lhe dirigir um gracejo?
Ou ficarão presas na garganta como arpão de Cupido
Que nos acertou em cheio? Será que as vozes e os cantos
Não escutam os meus lamentos? Nefertiti sob os bálsamos
E no coração dos tempos Black Beauty in my hearth
Cantando esta lenga-lenga.” (pp 120-121)

Este poema é ilustrativo da leitura que tenho vindo a fazer, assim como
da “canção de amor” referida no título deste livro de António de Nevada, canção essa triádica: a terra (que ensina e onde se viaja), a poesia ou canção (que atravessa a sala quase latejante) e o amor.
No entanto, convém fugir à tentativa de ler aqui um otimismo puro e duro, pois mesmo nos momentos de consecução e tendo-se afirmado que há sempre uma Abertura no final de cada etapa da viagem, apesar disso o desalento aparece sempre geminando e contaminando os diversos intentos do eu poético:

“As máscaras e a música em crescendo pelos caminhos da solidão.” (p 118)

e ainda:

“Vou cantarolando Tom Waits
Mas não tenho como adormecer
O ímpeto e a fronte nómada.
Errante no seio dos homens
Entre o colo e o sal que salga
Todo o sonho é pleno da dor.
Mãos côncavas que se entreabrem
E nos amparam no regaço das mães.” (p 126)

Este poema acaba enfatizando a minha proposta de leitura: a música (cantarolar), a errância no caminho (nómada, errante), o desalento (sal que salga), as dicotomias (sonho/dor) e a ténue Abertura no final (o regaço das mães).
Se, neste livro, as Vozes irrompem em uníssono na sua 1ª Secção, para na 2ª se distanciarem visando uma situação de polifonia, de contraponto, eis que na 3ª Secção as Vozes são dissonantes e é por haver essa atomização, essa dissonância, que se justifica um padrão, um cânone… silábico, que é ainda: uma canção de amor. Assim, embora se mantenham os principais temas e inquietações de toda esta estrutura poemática o ambiente especular dá-lhes outra dimensão. Veja-se o tom plural:

“Assim nos campos de trigo
As ceifeiras cantam!
E apascentamos a existência” (p 133)

Ou:

“Partilhamos a viagem e a calmaria.
À cata de cantos e tesouros
… …
Numa cadeia inaudível
De sons
Sobreposições
E polifonias dissonantes.” (p 138)

Mas a fuga a um ceticismo radical e a tal Abertura, por mim já referida, permanecem, neste final, como alento e objetivo – finalização da viagem e do verso ou da poesia:

“Não!
Tu encontrarás Ítaca
No silêncio que edificamos
E no verso que ilumina
A prata dos oceanos!” (p 142)

O eu poético pode por fim descansar, pois…

“Fiz a travessia imaginária” (p 153)

E, apesar do desalento e das vicissitudes, devolve-se a vida à sílaba e o acolhimento ao nómada, numa figuração da Abertura por mim referida várias vezes neste texto:

“Haverá a seu tempo
O quinhão da alegria
Para devolver ao peito.

E por todos os dias
Desafiando a mesura
O compasso e a vida
Devolveremos à sílaba
A sua parcela de júbilo.” (p 163)

O Coro da 4ª Secção desta obra não fará mais do que reforçar o que na 3ª foi assumido:

“defronte à vida
Aceito-a na plenitude
E cultivo cada quinhão” (p 206)

                                    

Victor Oliveira Mateus


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