O meu espírito quebra-se
Desarvorado, o meu espírito bate
nos vidros embaciados das janelas
fechadas. Ferido de tantos desnortes,
vai sangrando incompreensões
e cansaços, a desaprender
todas as formas conhecidas de voar.
Às vezes, uma oração: quer morrer
na areia quente de uma praia mansa
no fim de uma tarde amolecida
pelo calor de agosto.
Mas é outono no seu íntimo, sempre,
e mar alto nos quartos da casa contra
as portas que não respiram há muito
o lado de dentro do corpo.
Esquecido das medidas dos lugares,
o meu espírito quebra-se contra a idade
dos ossos, desfaz-se em pó contra
as madrugadas, rascunhos de cadáveres.
Bate nos vidros, nas paredes impenetráveis
deste mundo, nos cheiros nauseabundos
dos sonhos em decomposição.
E ferido de tantas lâminas suspensas
na contagem das inspirações,
vai sangrando o que resta de si,
gemido triste e lento a perder
a sua voz desmanchada.
inédito
Densidade
Cada vez mais frágil, tenho agora a densidade
de um vitral desbotado que Deus esqueceu
numa igreja qualquer, onde, de joelhos gastos,
o coração se prepara para ser exaustivamente
traduzido para a língua da solidão.
in Um corte leve na polpa dos dedos, Poética, 2026
Loucura
A janela está entreaberta
indecisa entre a brisa e o peso
de um rouxinol, mudo de nascença.
A corrente de ar que nasce desconhece
o rigor cartesiano da sua formação
e crê ser melodia o seu rumor,
pauta deslocada da estante que
tombou entretanto, empurrada
pela vibração do canto imaginado.
Este meu devaneio é só para dizer,
na verdade, que sou íntima da loucura.
in Um corte leve na polpa dos dedos, Poética, 2026