Recensão do livro Contra Corvos de Elisa Costa Pinto
Crianças de olhos limpos e palavras aladas/restauram
a transparência do mundo/e nós cegos.
«ISTO É UMA BORBOLETA VERMELHA», P. 19
Contra Corvos é o primeiro livro de poesia de Elisa Costa Pinto, uma obra tardia e de grande maturidade poética. É sobretudo um livro de uma grande leitora de poesia, como transparece ao longo das referências a que a autora lança mão.
Em Contra Corvos, Elisa Costa Pinto constrói um objeto poético de forte densidade simbólica, onde a linguagem se apresenta simultaneamente como espaço de resistência e de falha. Mais do que uma simples reunião de poemas, o livro organiza-se como um percurso de interrogação — da memória, da história e da própria possibilidade de dizer o mundo.
Desde os textos iniciais, impõe-se uma poética da tensão: entre luz e obscuridade, entre revelação e opacidade. A imagem recorrente dos “corvos” — associada ao olhar, à ameaça e à devoração — estrutura uma visão do mundo marcada pela inquietação. A possibilidade de emergência de “uma luz mais pura” a partir da noite não resolve essa tensão; antes a intensifica, inscrevendo a esperança num regime instável, sempre à beira da sua própria negação.
Neste ponto, a obra dialoga com uma tradição central da poesia portuguesa contemporânea, nomeadamente com a escrita de Sophia de Mello Breyner Andresen, na forma como convoca a luz e os elementos naturais. No entanto, enquanto em Sophia a natureza tende a configurar um espaço de ordem e de revelação ética, em Contra Corvos essa harmonia é constantemente perturbada: a natureza já não redime, antes espelha a crise.
A memória constitui outro eixo estruturante da obra. Tal como em Eugénio de Andrade, encontramos uma atenção sensível à infância, aos gestos
mínimos e à materialidade do mundo — o “cheiro a madeira”, os objetos, os lugares. Contudo, onde Eugénio frequentemente procura a depuração e a celebração do instante, Elisa Costa Pinto insiste na fratura: a memória surge como rasura, como perda irrecuperável
O passado não é um refúgio, mas um território instável.
Por outro lado, a dimensão reflexiva e intertextual aproxima esta obra de Herberto Helder, sobretudo na forma como o poema se constrói como campo de energia e de metamorfose. Ainda assim, há uma diferença fundamental: enquanto Helder tende a uma linguagem mais hermética e visionária, Costa Pinto mantém uma ancoragem reconhecível no real histórico e biográfico, o que torna a sua poesia simultaneamente exigente e comunicável.
É, contudo, na relação com o político que Contra Corvos mais claramente se inscreve na contemporaneidade. Em poemas como “Migrações”, a autora confronta o leitor com a violência do mundo atual, recusando qualquer neutralidade estética
Esta postura aproxima-a de uma linhagem que poderíamos associar a Ruy Belo ou mesmo a Manuel Alegre, onde o poema não abdica de uma responsabilidade ética. No entanto, ao contrário de uma poesia mais diretamente interventiva, aqui o político surge filtrado por imagens e por uma tensão lírica que evita o discurso panfletário.
Outro traço distintivo é o diálogo com as artes visuais, particularmente evidente na secção “Ut pictura poesis”. Esta dimensão aproxima a autora de uma tradição que inclui nomes como Fiama Hasse Pais Brandão, onde o poema funciona como espaço de pensamento e de cruzamento disciplinar. A referência a artistas como Klee, Kahlo ou Malevich não é decorativa: integra-se num esforço de pensar a criação artística como gesto comum, onde ver e dizer são operações inseparáveis.
Formalmente, a escrita de Elisa Costa Pinto caracteriza-se por uma fragmentação controlada, com versos que frequentemente dispensam pontuação e exigem do leitor uma reconstrução ativa do sentido. Este procedimento, que podemos aproximar de certas tendências da poesia portuguesa pós-60, reforça a ideia de que a linguagem não é transparente — antes um campo de tensão onde o sentido se constrói precariamente. Contudo, essa mesma ambição pode, em alguns momentos, conduzir a um certo excesso. A acumulação de referências culturais e simbólicas, embora intelectualmente estimulante, por vezes dilui a intensidade imediata do poema. Há instantes em que o leitor é mais convocado a decifrar do que a experienciar, o que cria uma distância que nem sempre é produtiva.
Ainda assim, é precisamente nessa tensão — entre clareza e opacidade, entre experiência e reflexão — que reside a força de Contra Corvos. A obra afirma-se como um contributo relevante para a poesia portuguesa contemporânea, dialogando com a tradição sem a repetir, e propondo uma escrita onde o íntimo e o coletivo, o sensível e o crítico, se entrelaçam de forma exigente.
Em síntese, Elisa Costa Pinto inscreve-se numa linhagem de poetas que recusam a facilidade e apostam numa poesia como forma de pensamento. Contra Corvos não oferece respostas, mas constrói um espaço onde a linguagem se confronta com os seus próprios limites — e é nesse confronto que o poema encontra a sua necessidade.
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