DESCARRILAMENTO
Ao jeito da pulsação de um talude,
as sirenes anunciam o descarrilamento do mundo
numa linha de alta velocidade
Portanto, meu irmão — meu soldado —
já nada virá das vísceras neurasténicas do inferno
a não ser uma amálgama de pó e ferros retorcidos
E eu, constrangida perante tal imagem
olho para ti, que de nascença és um esporão sinalizado,
condenado a implacáveis profecias;
olho para ti, que amarrotas a horda dos monstros
debaixo do sabugo e deitas os filhos à terra
mesmo antes que arrefeçam;
olho para ti, que estás só, assustado e hostil,
serventia de muro que penteia as heras para o lado
dos espetáculos desprezíveis,
e só penso em perguntar-te:
que coisa é o coração humano?
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A SOMBRA DOS PÁSSAROS
Queria uma réstia de luz por entre a sombra
dos pássaros.
Queria que fosse gentil e quente,
um toque de filigrana que jamais nos abandonasse.
Descalço os sapatos, desabrigo-me da pele
e recolho na terra árida
o palmito de sofrimento que sobre ela deixaste
Ninguém te convocará para as rugas
e os cabelos brancos;
para os passos arrastados de viagens interiores;
não serás incubadora de jovens oliveiras;
a confluência das águas
Já nem sequer o alvor da tarde te convocou,
arrefeceu-te a carne na posição de cadáver
Alguém te despiu a honra num retrato a sépia:
denuncio aqui a cobardice dos homens.
*-*-*
CIRCOS DE NERO
Não fosse já teres partido
e eu contava-te da quase inércia com que
me recosto confortável no sofá de três lugares,
depois do almoço,
e fico à espera que esta enxurrada diária,
que me traz possessa até às equações,
se escoe pelo ralo.
Parece cruel dizê-lo assim, deste jeito
apartado do rebanho, mas estou esgotada,
sem apetite para mais torrentes de sangue
em circos de Nero,
luzinhas a piscar nos olhos dos comentadores
Anseio que este tropel de bocas insaciáveis
descanse em paz
e eu possa, por fim, fazer o luto.
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