Faleceu no dia 12 de novembro o poeta Ângelo Alves, deixou-nos, mas ficaram as suas palavras…
Hei de voltar aos teus dedos
Para pôr ao sol o coração,
E o sol há de ser o teu olhar.
Hei de ser mais claro e azul
Do que naquele dia
Diante da mão a acenar.
Hei de voltar aos teus dedos
Para pôr ao sol o coração,
E o sol há de ser o teu olhar.
Ângelo Alves, Morro e só o Vento – inédito (2018)
Ângelo Miguel Pessoa Alves nasceu em 1978, em Cantanhede. Viveu sempre na Póvoa da Lomba, localidade vinícola pertencente ao concelho referido anteriormente. É professor de Física e Química e poeta.
Publicou Doidivino, Temas Originais, 2012; Falo do Fundo, 2014, Papiro; O Breve Odor dos Noveleiros, Temas Originais 2015; O Grande Nada Azul, Temas Originais 2016; Um Grande Sol Aproxima-se a Nado, Temas Originais, 2018.
O poema que acompanha a notícia — Hei de voltar aos teus dedos — revela uma delicadeza luminosa, na qual o gesto do regresso se apresenta quase como uma verdadeira profissão de fé na continuidade do amor e na permanência da alma através da palavra. Há, nesta despedida, uma dimensão profundamente simbólica: o poeta, que evoca o retorno ao sol e ao olhar, regressa, em certo sentido, à claridade que sempre buscou na sua escrita. A morte não o anula; transforma-o, como sucede com aqueles que fazem da linguagem um instrumento de transcendência.
A poesia de Ângelo Alves assenta numa ética da delicadeza e numa atenção meticulosa às minúcias da vida e do sentir. É precisamente esta sensibilidade que confere à sua obra a qualidade de espaço de reconciliação entre o humano e o sagrado, entre a contingência do quotidiano e a intemporalidade do espírito. Ângelo Alves compreendeu que o poeta é, acima de tudo, aquele que se demora no instante, no olhar, no afeto, na contemplação, para que nada se perca no abismo do tempo.
A sua voz continuará a ecoar na claridade e no silêncio que o destino lhe reservou. Permanecem, assim, as suas palavras: hei de voltar aos teus dedos, nas quais pressentimos o milagre da poesia e a certeza de que os verdadeiros poetas nunca partem; apenas regressam, incessantemente, à luz que os nomeou, tornando-se presença duradoura na memória e na consciência de quem os lê.
Rezarei por ti, Ângelo, como a tua poesia rezou por todos nós. Com a luz do silêncio que se derrama sobre o tempo, com a secreta força das palavras que se tornam eternas e preservam para sempre a tua presença entre nós.
Dei o nome Rosa
À minha solidão.
E, com o xaile negro
Que roça o jardim
E vai ornamentar
O puro coração,
Amo-a com desespero
E a vejo brotar.
E agora sinto
O abismo da cova,
A terra, o caixão,
A entrega do sino
E a pedra velada
P’la minha solidão.
Ângelo Alves, in Um grande sol aproxima-se a nado
Todos os poetas e a literatura portuguesa estão de luto. Proponho que nos inclinemos perante a memória de Ângelo Alves falecido no passado dia 12 de novembro.
Uma das vozes mais puras, luminosas e secretamente intensas da poesia portuguesa contemporânea. A sua obra, de rara transparência e rigor espiritual, ficou à margem do ruído e da vaidade literária que tantas vezes transforma a mediocridade em mérito e o efémero em consagração.
Ângelo Alves escreveu com a substância do silêncio e a claridade da alma. Na sua poesia não havia pose, apenas verdade — uma verdade que se recolhe no humano e o eleva ao seu esplendor. Num tempo em que o mercado se confunde com o cânone e o aplauso suplanta o pensamento, a sua voz resistiu com a dignidade dos que sabem que a arte não é vitrina, mas ferida e revelação.
Hoje, ao evocá-lo, fazemos mais do que recordar um poeta: restituímos à poesia o seu lugar sagrado, aquele onde a palavra se faz altar, e onde Ângelo Alves continua vivo, luminoso, essencial.
Henrique Levy