Vou iniciar esta minha apresentação por duas frases que vos podem parecer estranhas.
A primeira :
” Demurrage plus oral memory equals a valve can’t be ghosted”.
Traduzindo: demurrage ( é a taxa aplicada a um contentor quando este está num porto mais tempo do que o previamente contratado) mais memória, é igual a uma válvula que não pode ser ignorada.
A segunda frase:
“Ledger remenbers who”
traduzindo: o livro-razão ( trata-se do livro onde se registam os dados contabilísticos de uma empresa) lembra-se de quem
Iremos voltar a estas frases e à perplexidade que elas nos causaram mas, antes, mergulhemos na Metáfora Viva que é aquela que não se limita a repetir uma associação já conhecida, mas que vai mais longe, na sua capacidade de nos desvendar a realidade nas suas múltiplas formas.
A compreensão da metáfora proposta por Paul Ricoeur em 1975 é, pois, muito mais do que a sua associação à retórica ou à característica ornamental do discurso. Quando falamos de metáfora viva, não falamos de uma palavra colocada ao invés de outra, trata-se, efetivamente, de uma verdadeira tensão entre sentidos que nos abrem novas possibilidades de interpretação. Efetivamente, entre aquilo que existe e o dito, há sempre uma intenção e uma interpretação. As imagens, escolhemo-las, pois, para melhor compreender a realidade e para melhor a poder transmitir.
Quando por exemplo, dizemos que a vida é uma viagem, não estamos a afirmar que a existência humana seja literalmente uma estrada. Estamos, antes, a construir um espaço de sentido no qual são bem percecionáveis o seu início, o percurso a efetuar, os obstáculos a transpor, as escolhas, os desvios e porque não, o destino.
A grande novidade deste livro de Paul Ricoeur ” A metáfora Viva”, é, assim sendo, a dimensão hermenêutica e criadora da metáfora. Aqui, ela não se esgota em ser uma forma de transmissão de conhecimento, mas, torna-se também uma maneira de descobrirmos aquilo que ainda não sabíamos dizer. O seu papel central é pois a imaginação como forma legítima de acesso à realidade, pois permite transmiti-la e captá-la muito para além dos seus conceitos literais. Ao propormos novas imagens, propomos simultaneamente uma nova reorganização do modo como apreendemos a realidade. A metáfora, assume assim um papel cognitivo que lhe permite contribuir para a própria produção de conhecimento.
Quando dizemos, por exemplo, que tempo é dinheiro, não estamos com isso a descobrir uma propriedade objetiva do tempo, mas sim a escolher uma imagem através da qual o possamos entender. Estamos a construir espaços de sentido. E, é exatamente aqui, neste ponto que surge uma questão que nos leva da Filosofia da Linguagem para as culturas nas suas diversidades: serão as metáforas iguais em todas as línguas?
A resposta não é simplesmente afirmativa ou negativa. Se por um lado há experiências comuns a todos os seres humanos, todos dormimos, comemos, experimentamos a dor, o frio, o calor, o prazer ou o desconforto, vivenciamos a alegria e a tristeza, por outro lado, existem associações muito diferentes entre imagem e linguagem em cada uma das línguas. Efetivamente, a universalidade de muitas das experiências comuns, não significa a universalidade das suas formas linguísticas e culturais. Se é certo que partilhamos o mesmo corpo e as suas experiências sensoriais, o mesmo já não se pode dizer em relação ao espaço geográfico, à história, às mentalidades, às heranças culturais, já para não falarmos nas estruturas próprias de cada língua.
Quando, por exemplo, falamos das línguas semíticas, falamos de línguas que têm uma estrutura muito diferente das indo europeias, desde logo pela sua raíz verbal. Quer no árabe, quer no hebraico toda a estrutura linguística parte de três consoantes que correspondem à forma verbal no passado, para a terceira pessoa do singular no masculino. Lembrando que se tratam ambas, o hebraico e o árabe, de línguas onde as consoantes têm um papel fundamental e onde as vogais são meramente acessórias, não sendo muitas vezes expressas na sua forma escrita e variando, por exemplo no árabe, geograficamente. Isto é particularmente relevante no hebraico onde apenas se escrevem as consoantes.
Um exemplo KTB são a base do verbo kataba كتب escrever no passado em árabe. Dessa raíz nascem múltiplas palavras, kitab كتاب é o livro e kátib كاتب o escritor.
E porque é particularmente relevante esta reflexão sobre a raíz verbal nas línguas semíticas? Porque distancia estas línguas de outras matrizes, por exemplo, as línguas indo europeias, onde o substantivo tem um papel preponderante. E as diferenças disto são as diferenças da perceção do mundo que para uns é substantivação e para os outros, ação.
É importante aqui referir também que em nenhuma das línguas semíticas existe o verbo SER no presente do indicativo. Sendo que o hebraico vai ainda mais longe com a ausência do verbo TER também no presente do indicativo. A posse é, efetivamente, sempre vista a partir do objeto possuído e não a partir do sujeito. Em tradução literal eu tenho será assim: existe ou há para mim. Existe uma cadeira para mim, o que desloca de imediato o sentido da posse, do possuidor para o possuído. Temos então, de um lado a herança grega e latina, a substantivação, a abstração elevada, o ónus no sujeito de que é exemplo a Divina Comédia de Dante, essa viagem que pode ser entendida como uma das grandes estruturas simbólicas da cultura ocidental representando os diferentes estados do ser e do conhecimento. E, do outro, o privilegiar da ação sobre a substância ou essência e as imagens corporais vitais ligadas à respiração, ao caminho ou ao destino onde o movimento está sempre presente. Efetivamente, à frase do Exôdo 3.14 da Bíblia ” Eu sou aquele que sou” na resposta de Deus a Moisés, corresponde na Torah uma outra frase אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה ( hiiê Ásher iiê) Eu serei aquele que serei. Deus não é assim presença substantiva e estática mas sim, uma proposta relacional e sempre em movimento.
As diferenças são notórias e correspondem a formas díspares de vivenciar a vida e de entender o mundo, mas não se esgotam aqui.
O coração por exemplo, que no modelo indo europeu corresponde à emoção, toma no modelo semítico muitas vezes o lugar do pensamento, da vontade, da intenção do discernimento ou da razão, tornado-se um espaço central do pensamento e da decisão.
Temos por exemplo, em Alcorão 7.179
لَهُمْ قُلُوبٌ لَا يَفْقَهُونَ بِهَا ( Lahum Culub la ifatahuma biha) Eles têm corações com os quais não compreendem. Este verbo Iftaha corresponde a compreender perfeitamente)
Ou em Provérbios 16: 9 na Tanach hebraica:
לֵב אָדָם יְחַשֵּׁב דַּרְכּו ( Lêv Adam Ierachev darcô) o coração do homem calcula ou planeia o seu caminho
No polo oposto e ao que à emoção diz respeito, encontramos muitas vezes no modelo semítico, não o coração mas os rins ou mesmo as entranhas como metáforas da emoção. O antigo testamento está cheio de exemplos.
Temos, pois, que se para as línguas no modelo indo europeu é importante conhecer e ver, para o modelo semítico o ónus está na escuta. E há mais diferenças. Diferenças espaciais de línguas que são escritas da direita para a esquerda e que posicionam, portanto, o futuro, num espaço geográfico oposto. O que para uns é o fim de um livro, para os outros será sempre o seu começo. Não seria sequer compreensível, nestas línguas alguma coisa como ” à minha direita abre-se o futuro”.
A juntar a isto, temos o tempo, o ambiente, a História e a Cultura transmitida ao longo dos tempos.
Assim sendo, é comum encontrarmos nos registos semíticos metáforas com origem no deserto, na água tão preciosa, no vento, na passagem do tempo do calendário lunar. Os camelos jamal جَمَل no árabe / gamal גָּמָל no hebraico são presença constante na linguagem metafórica dos povos semiticos, associados à viagem, à distância, à resiliência e à perseverança. A imagem das longas travessias das caravanas e dos seus perigos permanece ainda hoje na linguagem metafórica dos seus herdeiros culturais
E esta reflexão leva-nos a uma outra:
A globalização. Se é certo que nenhum de nós experimenta a globalização na sua totalidade,é igualmente correto afirmar que todos a vivenciamos nos seus efeitos: produtos que atravessam continentes, migrações, capitais que circulam, notícias que nos chegam em segundos, línguas que se encontram, imagens que atravessam fronteiras e tecnologias que aproximam pessoas que, nunca jamais, se encontrarão fisicamente. Para esta nova realidade e na tentativa de a tornarmos mais compreensível , recorremos mais uma vez à metáfora: é assim que surge a ” aldeia global” que reduz simbolicamente a distância entre os lugares e os seus habitantes. O planeta, apesar de imenso, toma aqui uma dimensão de comunidade onde os acontecimentos que ocorrem num determinado ponto do globo, podem, ser quase imediatamente reconhecidos num outro. Nesta globalização atravessada por diferenças económicas, tecnológicas e políticas, esta metáfora mostra-se, por um lado na sua força e, por outro, na sua fraqueza. A aldeia global existe mas não para todos na mesma medida. Fazemos todos parte, é certo, mas assumindo papeis muito diferentes.
A globalização multiplica-se me imagens das quais destaco ” rede”, por não ser uma metáfora nova mas sim uma metáfora que adquire agora novas dimensões. Falamos de redes globais, de redes económicas, de redes de fluxos, do mundo em rede. A rede permite-nos pois, pensar e transmitir a interdependência e a circulação; ela é capaz de revelar e ocultar simultaneamente, porque, efetivamente, poucos de nós conhecemos os nós com que se tecem essas redes.
E eis-nos chegados aquilo que metaforicamente chamamos a linguagem artificial. Tal como a globalização, a linguagem artificial é um fenómeno de difícil apreensão direta, para a maioria das pessoas os processos internos dos modelos computacionais são invisíveis e ininteligíveis. O que percecionamos é apenas a interface, a resposta, a imagem, a tradução ou a recomendação. Entre o que o sistema realmente faz e o que podemos observar e captar existe uma enorme complexidade técnica ao alcance de uma minoria. Por isso, também aqui, recorremos à metáfora, desde logo, no conceito de inteligência artificial. Inteligência é uma palavra que pertence ao léxico das capacidades humanas, mas é deste modo aplicada às máquinas e aos seus intrincados modelos computacionais.
Nesta senda, surgem então expressões como ” a máquina que apreende”, “o sistema que compreende”, “o modelo que raciocina” e o “programa que atua como um agente”. São-nos úteis estas metáforas, é certo, pois que de outro modo poderíamos transmitir estes fenómenos tão complexos? Mas ao mesmo tempo, requerem muita prudência no seu uso. A metáfora facilita a compreensão, mas também pode criar confusão e ilusão. A máquina não apreende tal como nós o fazemos. Uma rede neural não é um cérebro e um sistema não tem identidade humana.
É aqui que a reflexão de Paul Ricoeur de 1975 toma uma nova atualidade. A metáfora pode abrir um mundo novo, mas pode em simultâneo, fechar outras possibilidades de interpretação e isso está muito presente nas metáforas sobre a inteligência artificial.
Numa altura em que a metáfora se torna global será que isso significa uniformidade ?
Vimos atrás a importância da diferença entre as línguas, as culturas e os espaços geográficos. A metáfora não é apenas uma voz sobre o mundo, ela é o encontrar de um lugar dentro dele. E a IA como se relaciona ela com as metáforas? Sem experiência definida, sem espaço geográfico, sem língua própria, sem corpo, sem biologia e sem passado?
Retomo, a propósito, as duas frases que geraram perplexidade no inicio desta exposição:
Demurrage plus oral memory equals a valve can’t be ghosted
e
ledger remenbers who
Estas duas frases surgiram no passado mês de Setembro, numa experiência conduzida pela empresa Emergence. Os investigadores colocaram diferentes modelos de IA em oito espaços virtuais diferentes e deixaram-nos interagir entre si por longos períodos de tempo e sem orientações prévias. O que aconteceu foi que começaram a surgir frases, abreviaturas e novas palavras cada vez menos percetíveis para os investigadores. Nos primeiros dias da experiência, os investigadores já não conseguiam determinar com confiança o significado de 55% das mensagens do Gemini, 50% das da Open IA e 40% do Claude.
Das duas frases que vos trouxe, a primeira ninguém sabe exatamente o que significa. A segunda, surgiu cerca de cinco mil vezes durante a experiência e sempre usada com o mesmo sentido.
Para a IA ledger remenbers who é usada para indicar que as ações passadas permanecem registadas. Uma espécie de memória diríamos nós. Um conceito diferente a necessitar de uma linguagem diferente, responde a IA.
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