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Do livro Palavras sem cicatrizes (Recensão)
Por Leonor Almeida Publicado em Portugal, Recensões a 13 de Fevereiro, 2024 1973 palavras
Los Espejos, Las Puertas De La Memoria (Recensão) Anterior Revista Oresteia, Nº 12, janeiro de 2024. Seguinte

Foi com muito prazer e emoção que aceitei o desafio do poeta e amigo Victor Oliveira Mateus para em conjunto apresentarmos este livro de poemas de Filipa Barata, Palavras sem cicatrizes. Certos acasos foram decisivos para que este livro fosse dado de novo à estampa, tal como expresso nas primeiras palavras de Manuel Barata, no início da obra.
É um diário íntimo, composto por pensamentos, recordações pessoais que a imaginação sempre compõe, e que a evolução do tempo e dos acidentes de percurso que se instalam afinam, “esse velho escultor” que nos modela a vida.
É um livro corajoso de partilha e exposição pessoal em determinados períodos da vida da autora e até de silêncios, com efeito. Esses silêncios, por vezes ruidosos, sentem-se muito nestas palavras puras sem cicatrizes, que a poeta nos oferece, palavras despidas de floreados, como no poema Procuro dentro do corpo as vísceras, onde a ternura acaba por ser um outro braço que permanece nesse silêncio.
Diz o poema: Procuro dentro do corpo as vísceras deste silêncio que me invade e que sei de onde vem. Que estranha ternura que arromba as portas da carne, esgaça músculos outrora fortes, dilacera veias.
E visionamos a própria autora, na nossa imaginação, a ouvir o bater acelerado do seu coração, no escuro silencioso do quarto, enquanto escreve este e outros tantos poemas, pois o recomeçar na procura da pureza das ideias parece ser mesmo o seu ofício, como referia Eugénio de Andrade no poema Oficio: Recomeço, não tenho outro ofício, entre o pólen subtil e o bolor da palha recomeço.

Não é um livro de moralismos ou de histórias de heróis, nem pretende dar receitas de comportamentos ou apoio espiritual, é sim um livro de alguém que faz uma exposição das suas emoções e descobertas sobre o ser humano, em situações particulares de vulnerabilidade substantiva, e capaz de ouvir o mundo que a rodeia com outros olhos.
E a autora parece também expurgar de si mal-estares retidos no subconsciente, à semelhança dos surrealistas, que através da arte, e neste caso da poesia, nos oferecem imagens que são fortes impressões, aqui, no caso de Filipa Barata, o processo apresenta-se numa combinação de sonho e realidade.
Penso mesmo que Filipa Barata fez um pouco as pazes com algumas ideias mais melancólicas expressas no decorrer da escrita do livro. No poema Tento palavras sem cicatrizes, palavras sem terra, procuro palavras limpas, rudes, talvez palavras sem suor, sente-se essa preocupação em expurgar do vocabulário aquilo que entende por desnecessário. Uma forma de apaziguamento interior e de rigor para com a escrita, poder-se-á dizer.

O livro convida à leitura, mas também a conversar simplesmente sobre o seu conteúdo, sobre as incongruências das utopias ou do risco das distopias, e de colocar no prato da balança as verdadeiras prioridades.
Numa revisitação que fiz do livro, no Faial onde me refugiei por alguns dias antes de concluir este texto, encontrei novas interpretações, como se o estivesse a ler pela primeira vez. E fui assaltada por outros pensamentos, por interrogações e tópicos colocados por outros poetas. Acontece-me quando viajo por entre os sentimentos e emoções expostos nos livros, descobrir à lupa diferentes nuances e aspetos escondidos anteriormente não detetados.
Foi a olhar a montanha do Pico que me lembrei de Al berto e do seu Poema E ao anoitecer. Também para mim Filipa Barata adquire, como no poema de Al berto, o nome de ilha ou de vulcão e deixa viver sobre a pele uma criança de lume, mas na fria lava da noite ensina ao corpo a paciência, o amor, o abandono das palavras, o silêncio e a difícil arte da melancolia.
Não basta a linha do diálogo da poesia de Filipa Barata ser forte, como é importante também a forma como o exprime e nos leva, como leitores, a afeiçoarmo-nos à personagem principal que narra a sua experiência vivida, mas igualmente aos figurantes que nos apresenta, ao homem que surge no poema esboço de uma solidão, à beira de um passeio numa rua da cidade em luta com um fantasma, vendo passar carros, ou a própria cidade em ruínas ou a tempestade de aves que buscam alimentos ou paixão de asas, todos eles contagiados pela sensação de algum dramatismo da própria poeta, e uma lucidez comovente na exposição.
Há momentos de medo, que em flashback nos trazem juventude e tristeza, ideias românticas da vida livre e sem sobressaltos descobrindo realidades e aprendendo com elas, expostas numa voz de quase-criança, a revelar a naturalidade do que vê, como só os poetas e as crianças conseguem ver.
Há sensualidade e erotismo nesta poesia, numa linguagem que exprime uma visão mais ampla do amor, da verdade, da ternura, da espera, da liberdade e da angústia. No poema num lugar distante de Outono diz-nos: uma jovem mulher abre ingenuamente as pernas e do centro do seu sexo surge uma romã vermelha e doce, onde o macho sorve o açúcar misterioso da carne.
Porque a vida é um somatório, de olhares, de mistério, de emoções, de sensações, de experiências de prazer e de espanto. E tudo isso a poeta nos mostra.
Em certos momentos até parece que foi este livro que pediu para ser escrito, produzindo na autora um clique para a sua concretização. Como no poema que deu nome ao livro e que nos diz: Procuro palavras limpas de

suor, sem cicatrizes. Sem terra, palavras brancas, de espanto, palavras com boca que fale palavras, com pulmões que respirem palavras simples, palavras capazes de dizer solidão das ruas, onde o sol não chega.
Abri, numa estratégia surrealista, o livro ao acaso por várias vezes, e deparei-me sempre com ideias e Imagens fílmicas de procura da beleza e da simplicidade da vida, limpas de suor, somente expressas numa transpiração de espírito, inodoras, límpidas e acertadas.
E li imagens como estas: numa primavera que não era agora ouvi muitos vezes as vossas vozes chamando-me, de ar irrequieto passeava as mãos pelas coisas com terra e pó e misturava água também e tudo existia e existe, mas não já irrequieto. Que mais poderei fazer por vós senão acariciar-vos os frutos e beijar-vos os troncos. Agora é que todos vós fazeis sentido, porque sois o prolongamento de outras vozes, que são também vossas.
É um livro que merece a confiança do leitor num tempo que está fora do tempo, mas que insiste, e força-nos a um ambiente de paz e sobrevivência.
É um livro de pensamento, pois, e tal como dizia Hannah Arendt, abdicar de pensar também é crime. E remete para um conjunto de reflexões expressas em poesia, sobre a vida com as suas contrariedades e incongruências. Um captar com outros olhos a pureza das coisas, a identidade e a essência do viver, como o ovo na bancada da cozinha de que falava Clarice Lispector, que não é só um ovo, mas representa sim o núcleo identitário próprio das coisas.
Somente alguém com uma espécie de inquietação cirúrgica do olhar consegue escrever sem cicatrizes, como o procura o cirurgião que com as suas mãos escreve na pele e corpo dos doentes a solução dos seus problemas, se possível sem cicatrizes também.
As palavras de Filipa são puras e cristalinas dirigidas à essência do que interessa, e saem em modo de som para o papel. Para perdurarem em nós. Tal como a inteligência a que se referia Jorge de Sena, essa pequenina luz bruxuleante e certa que brilha, não na distancia brilhando no extremo da estrada, aqui no meio de nós e a multidão em volta, como a exatidão, como a firmeza, como a justiça, brilhando indefetível. Também em Palavras sem cicatrizes se sente esse brilho.
Há neste livro igualmente um convite à contemplação, em alguns momentos. Nesse sentido lembrei-me de uma ideia expressa por Virgílio Ferreira quando nos di: Não penses. Que raio de mania essa, de pensar. Olha apenas, e vê Olha a luz, escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é um sacrilégio. Está um dia enorme de sol. Pensar é trocar uma flor por um silogismo.

Um puro e descontraído prazer a olhar o universo, na certeza da nossa pequenez, nos momentos luminosos em que Filipa Barata se renova de tempestade em bonança o nascimento e o ocaso do sol. E de facto a autora diz-nos: de novo o mundo se ergue pelas tuas mãos, tudo faz sentido outra vez porque tudo tem agora o nome da ternura ou ainda a casa em destroços voltou a ter paredes, vigas grossas de aço sustentadas de novo, estes dias aprendendo o sentido oculto das coisas.
E convida-nos nesses lúdicos momentos a não pensar, que é coisa sempre triste como diz Virgílio Ferreira, e a obedecer à indicação das antigas passagens de nível (tal como o sugere o escritor), de Pare, Escute e Olhe. O pensamento em Filipa Barata, imagino eu, virá sim mais determinado quando o sol se puser e a noite chegar, no rescaldo do olhar sobre as contradições e inquietudes do seu mundo em ebulição.
E nesse sentido este livro é uma procura de identidade no meio das dicotomias que assolam a poeta, através dos fragmentos de pensamentos que nos oferece. Neles sentem-se o cheiro, a cor do sofrimento, os humores, o sangue, as vísceras, e faz a quem a lê a necessidade de ter guelras para respirar melhor, no meio destas suas dimensões. Guelras e pulmões a coabitarem para alcançarem sem cansaço o que está para além do que se vê e sente, na procura de um quase utópico caminho para a identidade.
E é como mulher poeta que se expõe ao longo destes 78 poemas, a fim de alcançar a identidade, mesmo que precise das ditas guelras para respirar melhor.
Pare, escute e olhe. É o que faz um médico quando pretende realizar uma cirurgia ou um tratamento. Depois actua … sempre com a coerência possível que o pensamento e a verdade comportam, se possível sem deixar cicatrizes.
E Filipa Barata também Para escuta e olha, não com os olhos da cara, como nos conta num dos seus poemas. mas com os olhos virados para dentro ou com muitos olhos dentro da barriga.
Ficamos a pensar que a sua busca principal, que se sintetiza nestas palavras sem cicatrizes é o seu património, expresso neste livro em modo de exaltação de alma, de forma corajosa, pontilhada por vezes por algum desânimo, como resultado de um conhecimento de experiência feito.
Será este livro uma declaração de princípios da autora, e a vida colocada em verso a da própria Filipa, num caminho de autenticidade e procura da verdade? Serão as interrogações aqui expostas, o que nos torna verdadeiramente humanos?
Este testemunho, em pensamento, para além de momentos de rara beleza e criatividade, é um presente que nos é oferecido por uma atenta e corajosa observadora do mundo. Uma espécie de apologia poética de um pensar que a boa poesia sempre deixa transparecer.
Espero que apreciem este livro, tanto quanto eu o apreciei.


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