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Três esconjuros: primeira parte (versão bilingue)
Por Mercedes Roffé Publicado em Argentina, Literatura, Poesia a 17 de Janeiro, 2022 1113 palavras
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Situación para curar a un enfermo

invitad gente. invitadlos a todos. a una fiesta. una gran fiesta.
y si el enfermo no quiere salir de la cama, dejadlo, que no salga.
y que haya música y bailes, y cantos y pasteles.
y si el enfermo no quiere bailar, dejadlo, que no baile.
y si el enfermo no quiere cantar, dejadlo, que no cante.
y si el enfermo no quiere comer, dejadlo, que no coma, que no beba.
pero que haya ruido en la casa. y mucha gente.
y que se cuenten cuentos y memorias, y fábulas y acertijos
y si el enfermo no puede o no quiere decir nada, dejadlo
–que no hable, que no ría, no recuerde.
pero traed gente a la casa, al jardín de la casa, a la posada, al pueblo
que en la casa haya ruido, mucho ruido. mucha, mucha gente.


y al terminar la fiesta, dos o tres días después, las mujeres
echen todo lo que haya sobrado del banquete en el hueco de una sábana
grandes sábanas bordadas. de preferencia blancas, muy blancas.
de preferencia bordadas.
echen allí los pasteles, las almendras, los higos, las nueces, las castañas,
las moras y las masas hechas, las pastas y los panes, los zumos y los vinos
que lo lleven al río, entre seis, entre cuatro
que lleven la sábana al río, con sus bienes, sus frutos, sus pasteles,
por el bulevar que bajen, las cuatro, las seis al río, varias veces,
y echen todo a la corriente, las sobras del festín, el vino, el agua, el zumo,
las almendras, los higos
y arrojen todo al río, a la corriente

***

Situação para curar um enfermo


convidai gente. convidai-os a todos. para uma festa. uma grande festa.
e se o enfermo não quiser sair da cama, deixai-o, que não saia.
e que haja música e danças, e canções e bolos.
e se o enfermo não quiser dançar, deixai-o, que não dance.
e se o enfermo não quiser cantar, deixai-o, que não cante.
e se o enfermo não quiser comer, deixai-o, que não coma, que não beba.
mas que haja ruído em casa. e muita gente.
e que se narrem contos e memórias, e fábulas e adivinhas
e se o enfermo não puder ou não quiser dizer nada, deixai-o
      que não fale,       que não ria,       não recorde.
mas trazei gente para dentro, para o jardim da casa, para a posada,
para a aldeia
que na casa haja ruído, muito ruído. muita, muita gente.


e ao terminar a festa, dois ou três dias depois, as mulheres
deitem fora tudo o que tenha sobrado do banquete nem lençol bem aberto
grandes lençóis bordados. de preferência brancos, muito brancos.
de preferência bordados.
lancem ali os bolos, as amêndoas, os figos, as nozes, as castanhas,
as amoras e as massas, as pastas e os pães, os sumos e os vinhos
levem-no depois ao rio, agarrado por seis, por quatro
que levem o lençol para o rio, com tudo o que contém, seus frutos,seus bolos,
que desçam pela alameda, as quatro, as seis até ao rio, várias vezes,
e lancem tudo para a corrente, as sobras do festim, o vinho, a água, o sumo,
as amêndoas, os figos
e deitem tudo para o rio, para a corrente


Situación para romper un hechizo

Acuéstate
           –boca arriba
como si fueras a morir
o a darte a luz.


Remonta
la cuesta de los años
en lo oscuro.


Llega al umbral
            traspásalo / sumérgete
en la honda, estrecha, escala del olvido.


Dime qué ves.
Enfréntalo / enfréntate
a quien eras antes aún de la memoria.

¿Te reconoces?
Continúa.
Sí, reconoces ahora el camino
que te ha traído hasta aquí.
Su nitidez lo delata
            –un sueño azul que se proyecta en la pantalla azul del tiempo
              y va cobrando sentido.

¿Te ves?
Pregúntale por qué y acéptala
–cualquiera sea la respuesta

–He venido a decirte adiós –responde.
No digas más que eso
sin saña
sin violencia
sin rencor alguno.

Intentará retenerte
volver a responder lo que ya sabes
lo que ya le has oído
quizás de otra manera.


Baja los ojos y crea
–con la mirada solo–
un reguero en el suelo
un surco de tierra húmeda y cenizas.


Verás alzarse un fuego
una pared de fuego
–fuego frío–
entre tú y tu fracaso.
Despídete.
Dale la espalda.
Vuelve a tomar el camino
                              –el mismo:
el sueño azul sobre el azul del tiempo.

Remonta los peldaños de la escala honda, estrecha.
Llega al umbral
traspásalo y desciende
la pendiente oscura de los años.

Vuelve a tu cuerpo
¿sientes? un dolor en el vientre o en el pecho
como si algo de ti te hubiese sido arrancado
te anuncia que has vencido.


El dolor se irá
tú quedarás contigo.


La memoria del hueco
te seguirá adonde vayas.

***

Situação para quebrar um feitiço

Deita-te
            — boca para cima
como se fosses morrer
ou dar à luz.

Ultrapassa
o peso dos anos
no escuro.

Alcança o limite
            ultrapassa-o/ mergulha
na profunda, estreita, escada do esquecimento.

Diz-me o que vês.
Enfrenta-o/ enfrenta
quem foste ainda antes da memória.

Reconheces-te?
Continua.
Sim, agora reconheces o caminho
que te trouxe até aqui.
A sua nitidez denuncia-o
               -um sonho azul que se projeta no ecrã azul do tempo
                      e vai adquirindo sentido.

Vês-te?
Pergunta-lhe porquê e aceita
-seja qual for a resposta

-Vim dizer-te adeus – responde.
Não digas mais do que isso
sem cólera
sem violência
sem rancor algum.

Tentará reter-te
responder-te-á aquilo que já sabes
aquilo que já lhe hás escutado
embora de outro modo.

Baixa os olhos e faz
apenas com o olhar –
um regueiro no solo
um sulco de terra húmida e cinzas.

Verás levantar-se um fogo
uma parede de fogo
– fogo frio
entre ti e o teu fracasso.
Despede-te.
Vira-lhe as costas.
Regressa ao teu caminho
      o mesmo:
o sonho azul no azul do tempo.

Sobe os degraus da escadaria funda, estreita.
Alcança o limiar
cruza-o e desce
a inclinação obscura dos anos.

Regressa ao teu corpo
sentes? uma aflição no ventre ou no peito
como se algo de ti que te tivesse sido arrancado
te anunciasse que tinhas vencido.

A mágoa partirá
tu permanecerás contigo.

A memória do vazio
seguir-te-á para onde tu fores.

Tradução do espanhol de Victor Oliveira Mateus


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