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Dois poemas inéditos 
Por Maria Quintans Publicado em Literatura, Poesia, Portugal a 12 de Janeiro, 2021 640 palavras
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COCAÍNA 

eu podia ter arrancado aos jardins a falsa verdade. abrir a grade imersa  num saco de plástico pequenino onde guardavas três ou quatro filas de  coca. ajudar-te a penetrar as pregas de um escuro cristalino onde  marchava o argumento mais astuto.  

viajante atrás de um mal de seda. memória doce de um traficante a entrar  pela porta dessa inviolabilidade perversa. dessa sombra nas esquinas em  Lisboa onde a porta tem um fecho de como minha senhora se encontra o  refúgio para os males do mundo. espelho meu espelho meu planos de  passagem e esperteza rápida, a controlar as estrelas, a inventar matilhas  na terra remexida. eis que surge a boca a escorrer no vinho do desejo e a  crueldade das horas: na tua casa ou na minha? pergunta transparente na  nódoa da noite e um tremor instintivo estonteado pela angustia da  separação logo na primeira vez, na primeira noite, no primeiro vinho, no  primeiro beijo numa carruagem de bifes e lepra. 

na tua casa ou na minha? como um grito encontrado preguiçoso e lento a  escavar no peito todos os refúgios de mágoas afundadas na terra do peito  ainda quente, ainda rasgado com as unhas do tempo por todos os lados. a  arder, em chaga perdida, em fogo entranhado no álcool da memória. 

chegava um fio de azeite para iluminar o corpo. chegava apenas uma  braçada de dor para chegar a casa. despir o casaco e depois a roupa toda e  ficar assim calcinada na brancura do silêncio a esperar o amor que só de  vez em quando perpassa a vida.  

o sangue, esse imortaliza-se no milagre do sexo, cravado de hóstias em  poças de metal plastificado com a descoberta dos prodigiosos amores de  uma única expressão. 

a seguir amo-te que é uma palavra fácil que honra o aqui do tempo e da  garrafa de vinho aberta até ouvir a explosão de deus num ritmo alucinante  da pele a sacudir o suor da doçura do encontro da luta do encontro do  cavalo do encontro e do candeeiro tapado com panos vermelhos a quebrar  o mistério da labareda de luz.  

o silêncio engrandecido com a inocência de um amo-te sempre a seguir à  liberdade do sexo. ao abraço da noite. ao sentido de tudo como se tudo  fosse uma garrafa de oxigénio na cabeceira da cama a lembrar a  atmosfera do sono profundo por mais fina que seja a dor. e o coração a  bater nos flancos de um futuro alucinado. à pressa para não se esquecer  onde estava porque isso muda tudo. isso muda o povoamento do mundo e  a prova animal da próxima satisfação incompleta.

assim seja alienado o medo. a luxúria de um saquinho escondido na dobra  dos lençóis. assim seja o alimento. assim seja o gesto sedoso de partir em  vida. assim seja.


NO BETTER NAME

tenho a noite no circuito
dos olhos
fechados como o sangue
das pedras

as madrugadas
imaginárias onde tudo se
embaraça em paixões
deslizantes de faca na
boca

a penumbra da
idade quase bronze
na boca da morte

a loucura da chuva
a inventar ventos
à sua volta

o começo da coincidência
do amor
batente de porta
e de sinal aberto

não importa a raiz
importa a terra
não importa o abismo
importa o lago

o desenho redondo
das estrelas nas
pálpebras o lugar dos
círculos
planos da verdade

a terra lavrada
de crânios à mostra
a folhagem do
instante na lentidão da

morte
pedra a pedra
o túmulo do leite
onde sempre
acolhemos o invisível.

Literatura Poesia Portugal


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