menu Menu
Dois poemas inéditos
Por Amadeu Baptista Publicado em Literatura, Poesia, Portugal a 26 de Dezembro, 2020 418 palavras
Cine, derecho y realidad social Anterior Tradução de dois sonetos de Ruben Darío Seguinte

Amadeu Baptista

NÃO CAIAS

Aguenta mal o mal que te fizerem
E não dês parte de fraco se morderem
A mão com que deste de comer e a ternura
Que de boa-fé foste entregando.

Molha a sopa em tudo o que revele
A malsã condição de te destratarem
Se deste a carne e os ossos te roeram
E no fim nem sequer te agradeceram.

Nunca vás em cantigas, nunca deixes
Que a chuva caia no molhado.
Não dês tréguas a quem faz da ingratidão

Um coice sobre a tua humanidade.
Não caias na armadilha que montarem
Os que sobre ti se insinuem com imundície.

ESTAMOS FEITOS

Estamos feitos com estes que arrotam
Postas de pescada e não mais querem
Do que escravizar os pobres, a gente
Que lhes falta para criadagem e direito
De pernada. Chegam às praças armados
Da voltagem que os mostra como biltres
Dos seus jogos sinistros, a gritar comícios
Como se tivessem razão para os fazer,
Enquanto ficam de olho a quem possam
Sequestrar a um canto para lhes bater
Ou assassinar, os pretos, os ciganos,
Os diferentes, aqueles que não podem
Defender-se. Estamos feitos com estes
Que agridem como um investimento
Que busca dividendos, os que fazem
Da verdade um pano sujo, os que apostam
No caos e negam tudo o que possa resguardar
O colectivo, a paz, o solidário, o democrata,
O que assegura que pode haver um caminho
Para todos. Estamos feitos com esta pseudo-
Ignorância que hostiliza os povos e a sua história,
Aqueles que resistem, os que lutam,
Os que sempre combateram pela vida fora.
Estamos feitos com estes parasitas
Que chamam calaceiros a quem trabalha
E de mentira em mentira aspiram ao poder
De imporem o silêncio sobre tudo, com as mãos
A escorrer sangue e com a boca cheia de uma baba
Repelente de veneno e de dano. Estamos feitos
Se nos distraíramos da sua astúcia de vermes
E verrina, de ódio pelos outros, os que julgam
Que à viva força podem subjugar a humanidade,
A compaixão, o amor, a força viva que no nosso
Mistério acalantamos. Estamos feitos com estes
Demagogos que não hesitam em subverter
A claridade, os que aspiram às voltas do passado
Em que podiam perseguir e aniquilar
Quem quer que clamasse por justiça.
Estamos feitos se não formos maiores
Do que nós próprios, se não soubermos suster
E avançar sobre a onda maléfica da ameaça,
Se ficarmos parados e nem sequer ousarmos
Dizer com quantas letras se diz a liberdade.
Estamos feitos se não nos inquietarmos.

Literatura Poesia Portugal


Anterior Seguinte

keyboard_arrow_up